Odeio essas
mortes seguidas, apressadas, sobrepostas. Em intervalos tão curtos nunca tive
tempo de oferecer a merecida e necessária devoção a cada um deles.
Apenas Gabi
foi respeitada, ao menos até a marca dos cinco anos, pois aos dez já chegará
acompanhada, aliás, mais que a mim. Meu pai, que tanto gostava de sua caçula,
deu a ela esse tempo. Permitiu que fosse chorada. Se não o suficiente, que esta
é medida que nunca se alcança, ao menos satisfatoriamente. E só depois morreu.
O João,
embora fosse inteligente e sensível, não teve esse cuidado. Padecendo da
precipitada índole adolescente, na qual se eternizou, nos abandonou enquanto
meu pai ainda se destacava na área de trabalho e servia de inspiração para que
a Ana desenhasse corações no mouse pad. De luto, o violão do menino manteve o
preto enquanto o cavaquinho nunca mais chorou.
Assim, para a
tela do computador a solução foi uma foto de toda a família, tirada na minha
formatura no final de 2009. Nela, Gabi era uma rosa branca na mão direita da
minha mãe, linda. Ninguém a esquecia, óbvio, mas mamãe tinha dessas sacadas.
Nesse caso ela repetia o que fez no natal de 2004.
Meu pai,
portanto, não foi muito chorado, escrito ou desenhado. Não houve tempo para que
todas as lágrimas caíssem, do que evidentemente ele perdoa o João. Conquanto
lamentasse nosso sofrimento, o velho estava feliz por ter ao lado seus dois
caçulas. Para sempre seria no céu o pai clássico, pai de crianças.
Porém, daí em
diante, o João foi o senhor dos meus escritos. Fossem patéticos, melancólicos,
desesperados ou suicidas, todas as letras revelavam sua imagem. Era ele o meu
novo santo, para quem eu rezava todas as horas do dia. No entanto, embora meu
pai não se importasse, eu me culpava por não me lembrar dele, mas ele era pai e
é do destino dos pais morrerem, e não dos irmãos. Por isso a partida do João
era diferente e mais dolorida. De onde estava, meu pai continuava compreensivo,
e me entendia.
Dessa forma,
respaldado pela benção paterna, mantive o João na ordem do dia e segui vivendo
a morte daquele menino de 15 anos, que ao invés de ansiar beijar, jogar futebol
ou estudar, foi atinar de morrer. Magnífico morrer aos 15, sem nem imaginar a
pressão da vida adulta. Invejável, mas não original, Gabi foi quem primeiro
teve a ideia.
Assim, ao
João dediquei um blog, uma pasta de fotos e vários lamentos no meu caderno da
faculdade. Contudo, numa noite de segunda-feira, fui surpreendido com a Ana
pedindo-me algumas palavras. Constrangida, pois não teve coragem de faze-lo
pessoalmente, deixou-me apenas um bilhete na forma de uma casa silenciosa, que
demorei a entender. Só a pouco aprendi a ler o vazio. Sua ausência é uma mensagem
permanentemente renovada pelo silêncio.
Como solução
para a área de trabalho mantivemos a mesma foto, de dezembro de 2009, onde
ostento uma camisa listrada e estamos todos sorrindo. Por vezes, na saudade da madrugada,
distraio-me a observá-la, e alucinado, nostálgico, triste, imagino que mamãe
segura um buquê de filhos.
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