terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Atropelo


Odeio essas mortes seguidas, apressadas, sobrepostas. Em intervalos tão curtos nunca tive tempo de oferecer a merecida e necessária devoção a cada um deles.

Apenas Gabi foi respeitada, ao menos até a marca dos cinco anos, pois aos dez já chegará acompanhada, aliás, mais que a mim. Meu pai, que tanto gostava de sua caçula, deu a ela esse tempo. Permitiu que fosse chorada. Se não o suficiente, que esta é medida que nunca se alcança, ao menos satisfatoriamente. E só depois morreu.

O João, embora fosse inteligente e sensível, não teve esse cuidado. Padecendo da precipitada índole adolescente, na qual se eternizou, nos abandonou enquanto meu pai ainda se destacava na área de trabalho e servia de inspiração para que a Ana desenhasse corações no mouse pad. De luto, o violão do menino manteve o preto enquanto o cavaquinho nunca mais chorou.

Assim, para a tela do computador a solução foi uma foto de toda a família, tirada na minha formatura no final de 2009. Nela, Gabi era uma rosa branca na mão direita da minha mãe, linda. Ninguém a esquecia, óbvio, mas mamãe tinha dessas sacadas. Nesse caso ela repetia o que fez no natal de 2004.

Meu pai, portanto, não foi muito chorado, escrito ou desenhado. Não houve tempo para que todas as lágrimas caíssem, do que evidentemente ele perdoa o João. Conquanto lamentasse nosso sofrimento, o velho estava feliz por ter ao lado seus dois caçulas. Para sempre seria no céu o pai clássico, pai de crianças.

Porém, daí em diante, o João foi o senhor dos meus escritos. Fossem patéticos, melancólicos, desesperados ou suicidas, todas as letras revelavam sua imagem. Era ele o meu novo santo, para quem eu rezava todas as horas do dia. No entanto, embora meu pai não se importasse, eu me culpava por não me lembrar dele, mas ele era pai e é do destino dos pais morrerem, e não dos irmãos. Por isso a partida do João era diferente e mais dolorida. De onde estava, meu pai continuava compreensivo, e me entendia.

Dessa forma, respaldado pela benção paterna, mantive o João na ordem do dia e segui vivendo a morte daquele menino de 15 anos, que ao invés de ansiar beijar, jogar futebol ou estudar, foi atinar de morrer. Magnífico morrer aos 15, sem nem imaginar a pressão da vida adulta. Invejável, mas não original, Gabi foi quem primeiro teve a ideia.

Assim, ao João dediquei um blog, uma pasta de fotos e vários lamentos no meu caderno da faculdade. Contudo, numa noite de segunda-feira, fui surpreendido com a Ana pedindo-me algumas palavras. Constrangida, pois não teve coragem de faze-lo pessoalmente, deixou-me apenas um bilhete na forma de uma casa silenciosa, que demorei a entender. Só a pouco aprendi a ler o vazio. Sua ausência é uma mensagem permanentemente renovada pelo silêncio.

Como solução para a área de trabalho mantivemos a mesma foto, de dezembro de 2009, onde ostento uma camisa listrada e estamos todos sorrindo.  Por vezes, na saudade da madrugada, distraio-me a observá-la, e alucinado, nostálgico, triste, imagino que mamãe segura um buquê de filhos.

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