Enquanto
devoro em minha leitura matinal as angústias da autora que admite só com
sofreguidão sua infelicidade, só penso em escrever. Invejoso, impaciente, inquieto,
balanço as pernas no sofá, ansioso por despejar no papel as minhas angústias.
Gosto, mas não preciso ler a dos outros, saber das dos outros, já as tenho em
bom número, e em boa conta. Gosto das minhas angústias, alimento-me delas vorazmente,
geralmente de madrugada, mas nessa manhã também. É que hoje ela sentiu sede e
veio logo que acordou tomar água, comer alguma coisa, se alimentar de mim. Sou
eu que me alimento de mim, embora não me suporte, não me tolere, não me importe
e não goste desse gosto de noite da minha língua. Sabor de fracasso, fraqueza,
franqueza. Franqueza que só encontro nas palavras, somente escritas, pois as
ditas levam na cauda a mentira necessária do dia-a-dia social, mas não pessoal.
Nunca sou eu que falo, é outro, outro estranho eu, um eu social, feliz, sorridente
e que olha para frente. Escrevo por que preciso, escrevo por que gosto, gosto
de escrever e publico o que escrevo por que sou vaidoso. Escrevo bem? Escrevo mal?
Preciso de reconhecimento, admito, maldita vaidade. Mas se escrevo para
expressar-me, para ser lido por mim mesmo, para ler e entender esse eu pessoal,
para que preciso de reconhecimento? Para que publicar? - Vaidade. Sou interno e
externo, pessoal e social. Gosto de escrever e é o que acho que faço de melhor,
ler e escrever, mas quanto mais escrevo mais tenho medo de escrever e acho que minha
escrita tem piorado a cada linha. Poderia viver disso, já que gosto, mas por
que tudo o que gostamos tem de ser colocado a serviço de fazer dinheiro? – Para poder
viver. Ser cotidiano é fazer dinheiro. Para poder continuar escrevendo, lendo e
assistindo a filmes que são necessários para eu continuar frequentando os
grupos que gosto. – Já viu o novo filme do Almodovar? Merda de vida vazia. Aff...
cansei de escrever, posso voltar agora para a angústia da autora, pobre diaba,
parece ter sofrido bastante, me identifico tanto. Mais tarde, com ares de desabafo,
publico essa merda aqui. E dissimulando propósitos inadmissíveis escolho cautelosamente
os marcadores, a fonte e um tamanho de letra que facilite a leitura, esperando do ledor - quem sabe - alguma sorte de elogio. Sou um miserável.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
Leituras
Fernando Sabino é um autor
perigoso. Sua escrita - de tão deliciosamente simples - me faz crer que também posso. Já a
Clarice me coloca no meu devido lugar.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Dignidade
Morreu de forma digna,
disseram todos os amigos, mesmo os mais abalados. Nos últimos anos de vida
havia decidido se isolar, mudando-se para o interior e vindo à cidade somente
para responder aos chamados burocráticos. Ainda era jovem quando decidiu-se pelo isolamento, beirava a casa dos vinte anos quando por infelizes coincidências teve pela
morte retirado o direito de conviver com seus irmãos. Sendo o mais azarado
deles, coube-lhe ficar, para que tal qual uma estátua simbolizasse a desgraça
daquela família.
Durante a infância era
visto como uma criança inteligente, depósito de esperanças e de um futuro
promissor. Sem motivo aparente já escondia no peito certa vocação melancólica,
expressada na timidez e nas longas horas de futebol solitário com o muro do
terreiro. Sozinho, ele era o time inteiro, do atacante ao goleiro, de forma que
assim foi aprendendo a se bastar. Manifestava também no gosto pela leitura
alguma introspecção, hábito interrompido temporariamente em função de um moderno vídeo
game, que também jogava sozinho.
Quando a mãe anunciou
um irmãozinho, foi impedido pelo ciúme de compreender de imediato o valor daquela companhia.
Além do que, ele já tinha onze anos, para que serviria um irmão com dez quando
eu tiver vinte? - Ninguém brinca com 20 anos, pensava. Porém, pudesse ver o futuro não
haveria reclamado. Em dez anos, sem que percebesse, a vida moldou não um irmão,
desses chatos que só servem para disputar com a gente o amor da mãe ou a
bandeja de iogurte, mas um amigo, no sentido mais intenso do termo. Claro, de fato
não pode com ele jogar futebol, mas pode conversar. Ah, e como conversavam.
Aquele menino não tinha dez, mas vinte, trinta, sessenta anos se fosse preciso,
encerrava em si todas as idades de modo que sua companhia atendia a qualquer necessidade
de comunicação do irmão mais velho. E que futuro!
Futuro? De tão
inteligente o menino envelheceu tão rápido que nem esperou o avô, metendo-se de
surpresa na fila preferencial e deixando o irmão mais velho novamente sozinho
no terreiro, ele o muro. Contudo, desanimado, agora já não chutava com tanta força a bola na parede, e ela quase não voltava ao seu encontro. Quase ninguém
vinha ao seu encontro.
Embora os amigos o procurassem
com avidez, não o encontravam em lugar algum. Quanto mais avançavam os meios de
comunicação, mais afastado se via dos amigos e pessoas que gostava. Pura opção,
não era difícil perceber, e todos perceberam. Perceberam também que ele se matava aos
poucos, primeiro socialmente, e ainda que evitassem pensar nisso, sabiam que a
próxima morte seria física, material, dessas com caixão, piadas e café forte a
noite toda.
Entretanto, mais rápido
que ele foi a irmã. Engenhosa, fingiu uma formatura, namoro, emprego, tudo para
articular uma ideia de futuro e faze-lo acreditar que planejava viver muito
para acompanhar a mãe até os últimos dias. Pura mentira, engenhosidade,
esperteza. Maquinou tudo na agenda que nunca saia da bolsa,
onde, com meticulosa discrição, escolheu e marcou a data, mês, horário, cuidando
para que ninguém pudesse evitar a realização do plano. Novamente ele foi
pego de surpresa.
Daí é que comprou o
sítio, numa cidade afastada de Belo Horizonte, lá pelos lados do aeroporto, escondida no fundo do coração. Interiorana, chuvosa, a cidade tinha acesso difícil. Sem
telefone, Facebook ou caixa de correio, foi ali que se escondeu até seus
derradeiros dias, quando sentado numa cadeira de madeira antiga, escura, meteu
na cabeça uma bala de revólver.
Quando no fim da tarde
de sábado foi encontrado pelo caseiro uma mosca nojenta já repousava na boca
aberta, feia, enquanto o sangue escuro escorria detrás da cabeça por entre os
cabelos longos e bonitos. Por ironia, dessas que só a vida sabe tecer, ao
contrário da cabeça tão elogiada, foi o coração - algoz de todos os irmãos e que
tanto que lhe apertara durante a vida - que chegou ao fim daquela história
intacto. Na verdade, chegou forte como
tinha de ser, de outra forma não suportaria tanta tristeza. Nessa mesma noite,
estendido na mesa iluminada, ele ouvia com um sorriso desenhado aquelas palavras
amigas de compreensão. - Morreu de forma digna.
Infidelidade
“Poesia não é tentar trepar
pelas paredes, é trepar mesmo pelas paredes.” Lia sorrindo no livro rosa do
Mário Quintana enquanto se encaminhava ao centro da cidade. O metrô estava
vazio e sem dificuldade pode sentar-se, como de costume, de frente para o vidro
espelhado. Sua vaidade, a cada túnel, saia de trás da porta para que ele
pudesse conferir o cabelo. Além da leitura, a música no último volume
completava a redoma que o levava seguro ao encontro da namorada. Ali dentro
nada o importunava, saia somente para ajeitar o cabelo e os óculos na porta
envidraçada, dominava tão bem o trajeto que não precisava pensar para achar os túneis,
eles é que o achavam no intervalo de alguma estação. Quintaneando, sozinho, consumia distraído o seu
caminho.
De repente, a deleitar-se
com alguma sacada do amigo poeta, levantou do livro os olhos risonhos rompendo
num só pensamento sua bolha protetora. - Linda! Antes que ela o fitasse de
volta, rapidamente laçou pela cauda os olhos, trazendo-os - a tempo - ao abrido
do poeta que ria maliciosamente. Quinze minutos depois, num beijo ardente,
cumprimentava sua amada na saída da estação central.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Cão e gato
Maldita saudade. Sorrateira, só
me ataca a noite, quando ninguém há por perto.
Benvinda saudade, manhosa. Como
um gato, sabe que lhe dou mais atenção à noite.
Durante o dia está sempre se
esquivando, mal aparece para tomar água. Ao desatento visitante parece que moro
sozinho, eu e a indiferença. Odores? Nem bons nem maus.
Nenhum pelo no chão, nenhuma
almofada rasgada. Eu remendo todas logo ao me levantar que é pra não ter de
responder às perguntas tolas que ninguém faz.
Das madrugadas agitadas? - Não,
ninguém pergunta. Também não dá pra saber. Ela chega, toma da água, come alguma
coisa e logo parte. Às vezes fica.
- Sim, sim, fui eu que adestrei. Minha
saudade é tranquila, meu choro é que é escandaloso. Filhote, ele ainda
é muito intempestivo. Não resiste vê-la chegar e sai latindo alto atrás dela.
- Ela? Nada, nem liga. Sobe no guarda
roupas e fica lá, indiferente, lambendo a pata até de manhã. Eu nem noto quando
se vai, e só a vejo na noite seguinte.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Sabe dessas belas histórias de amor?
Sabe dessas belas histórias
de amor, geralmente de velhinhos, em que quando um morre o outro geralmente não
vive por muito tempo? Então, eu vivi uma dessas histórias, porém a minha foi mal
sucedida, já que eu mesmo fiquei pra contar.
Talvez a explicação esteja em um fato da minha infância, quando eu passava férias na casa da minha avó. Nessa ocasião, minha
tia convidou uma cigana para ler seu futuro e trancaram-se no quarto por quase uma hora. Meus dois primos e eu ficamos curiosíssimos
com aquilo, e ela, quando já ia embora, como nos desse um doce, leu somente a linha
da vida de nossas mãos, ali no terreiro mesmo, perto do portão.
Sem rodeios, e com uma cara pouco confiável, disse ao mais velho que ele não viveria muito. Ao segundo
e a mim, metaforizou, enquanto resumia dois destinos em apenas uma sentença: – Vocês vão contar as histórias da
família Heliodoro. Eu não entendi muito no dia, mas gostei de saber que viveria bastante, era ainda criança ou adolescente e a ideia de me tornar adulto ainda me
agradava, e na palma das minhas mãos estava a garantia que de isso aconteceria.
Mas assim como meu pai, a
cigana também se esqueceu de me contar a verdade a respeito da vida adulta. E omitindo o que de fato me aguardava não explicou o que aquela frase significava. Naquele momento eu também não
entenderia, até então minha vida era só vida, vida, vida,... criança né.
Na verdade, ela não quis
dizer que eu viveria, apenas que eu contaria as histórias, é diferente. Queria
dizer que, ao contrário dos velhinhos viúvos, eu não poderia acompanhar os
amores que perderia. Talvez por que fossem muitos e alguém devesse ficar para chorá-los,
ou talvez por que não precisassem da minha companhia.
Sozinho, eu tive de ir
ficando, acostumando-me, vagando entre as fotos da sala e lembranças de
abraços. Alguns velhinhos - coitados, assim como eu, também são condenados a
ficar por aí sendo as almas penadas deste mundo. Como consolo, eles ao menos
ostentam um título: viúvos. Ao contrário daqueles que perdem irmãos, nomeados somente pelo silêncio da casa.
Mas do que é que eu estou
reclamando. Se ainda não inventaram um nome para as mães que perdem filhos, o
que eu quero como irmão?
Diário
Angústia, aflição, tormenta. É a noite que chega.
Agitação, tumulto, tristeza. A madrugada. Resignação. Sono.
domingo, 20 de janeiro de 2013
Viagem
A imagem do metrô chegando em curva é tão bonita que eu penso que essa devia ser a arquitetura de todas as estações.
Diálogo
- Tio, por quê colocam plástico sob a blusa dos defuntos?
- Pra nos lembrar que o coração não tá mais aí.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Que raiva de todo mundo!
Essa frase não pode ser dita, nem escrita,
é proibida. É que todo mundo entra aqui e ao ler isso fica bravo, ou brava. O
problema é que todo mundo é egocêntrico, e acha que o mundo gira ao seu redor, assim, quando eu digo todo mundo, todo mundo acaba sempre achando que é com
ele, ou com ela. Todo mundo não tem gênero nem orientação sexual, pode ser ele
e pode ser ela. Indiferenciação, esse é o pior de todo mundo, sempre dá margem para inclusão.
Por que todo mundo é todo mundo, não tem fora, e quando eu sinto raiva de todo
mundo é de todo mundo - mesmo! - que eu sinto raiva. Todo mundo não tem exceção.
Todo mundo é tudo, todos, eu inclusive. Ah, mas que raiva todo mundo, sobretudo
por que ninguém nunca entende. Ou seria alguém
nunca entende? Não, alguém é muito específico, e a minha raiva não é direcionada, ela é de todo mundo.
Quem sabe ninguém seja melhor? Até por
que, eu penso agora, se tenho raiva de todo mundo o problema pode estar
comigo, portanto, com ninguém. É melhor não pensar assim, azar é de todo mundo, que raiva. Aliás, todos vocês, sem distinção, só me fazem raiva com essa incapacidade de entender que raiva de todo mundo é bem mais a expressão de algo inexpressável, de uma angústia indirecionável e de um temor inconfessável, do que verdadeiramente
um sentimento ruim dirigido a todos ou a alguém que conheço. É de, não é contra. Espero que dessa vez tenha dado para entender. Apesar que o meu
problema ninguém consegue resolver, nunca apareceu alguém que resolva. Pensando por esse lado a culpa também é de
todo mundo, malditos incompetentes, que raiva. Que raiva de todo mundo!
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Créditos
"A esperança é um urubu pintado de Verde."
Mario Quintana, em Da preguiça como método de trabalho.
Aniversário
- E aí, o aniversário dela,
como passou? Ah, pensei que fosse ser pior, mas a gente vai levando, sem nem
saber que dá conta. Não, esse diálogo não existiu. Ele já sabia que haviam
assuntos proibidos no mundo dos homens e não precisava de mais uma prova, no
entanto a vida fazia questão de lembra-lo. Aliás, corajosa, a vida era a única.
Era a única a lhe tocar a ferida.
Os homens nunca o falavam do
passado, temiam fazê-lo chorar.
Ingênuos, não imaginavam que falar do futuro é que o cortava a espinha.
O passado, embora não fosse todo felicidade, a seu favor trazia a certeza do
fato acontecido, enquanto o futuro... Ah, o futuro. O futuro parte do
infinitivo, exige fazer, realizar, planejar, trabalhar, estudar, pesquisar.
Acontecer. Um verdadeiro chato que não para de dar ordens. E dos pés à cabeça
aquele homem era só passado. Sua esperança um urubu pintado de verde. Ora, e
qual o problema de chorar? Chorar. Respeitava sem entender. Mas fato é que o
dia passou, besta, invisível como uma terça-feira.
Deus
Às vezes acho patético seu
esforço de continuar vivo. Será que Ele não percebe que é melhor como
metáfora do que como primeira pessoa da Trindade?
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Te mo
Andava com preguiça das
pessoas. Não encontrava em nenhuma delas a culpa de seu fracasso, de sua
desgraça. Nem para isso serviam, reclamava em pensamento. Para o futuro, só carregava uma certeza, a de que iria se arrepender. Como não fosse tão tolo e se conhecesse
bem, sabia que entenderia seus motivos. Fazemos sempre o que tem de ser feito,
era um de seus mantras. Na faculdade aprendera que o passado deve ser julgado
sempre em seus termos, o que utilizava mais em beneficio próprio que
profissional.
Assim, fora compreendendo – e respeitando – a trajetória dos pais,
dos amigos, e de quem lhe interessava respeitar. Contudo, dessa vez sabia:
iria se arrepender. Era uma revelação. Quando, daqui a alguns anos, revolvesse o
passado, entenderia, porém não sem tristeza, não sem remorso. E agora? Sofria
por antecipação ao projetar-se no futuro sorvendo do presente esse passado que
ainda não passou? Precisava disso? Talvez. Quem sabe dessa forma o evitasse
tomando novas atitudes – ou alguma atitude. Ou talvez não, como seria mais
provável.
Em verdade, como se lhe faltassem motivos, antecipava-se somente pelo prazer de sofrer. Idiota. Nunca soube transformar limão em limonada e desde
criança terminava sempre com a boca machucada, em carne viva. Ia chupando
aquele negócio, comendo o bagaço e matando a fome e a sede de melancolia que
sempre teve. Depois da tempestade, sorria, trazendo ainda as cicatrizes que
denunciavam a falta de cuidado adequado. Era feio. Não era difícil notar que as feridas curavam-se sozinhas, por iniciativa do corpo e não do sujeito, sem a menor ajuda
de alguma parte pensante.
E hoje a história se repetia, com a única diferença
de que previa com temor o futuro que ele mesmo se reservava. Quem beijaria
aquela boca amarga? Quem ostentaria a amizade daquela cara enrugada? Quem encostaria-se
àquele rosto fétido, ainda exalando o mau cheiro de feridas antigas? Ninguém.
Desanimado, deitou-se na cama. Resignado, buscou entender sua falta de forças,
e encontrou motivos, mas só o suficiente para se levantar com dignidade na manhã seguinte. E dormiu enquanto tecia formas sombrias de fugir àquele destino.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Ignorância e heresia
O bom de não saber inglês é a liberdade de ler e ouvir música,
simultaneamente. Um não interpela o outro. Se quiser, posso até escrever, como
agora. A música, respeitosa, somente me observa. Ao contrário de Vinícius e
Chico, Bob Dylan não me obriga a cantar. Janis Joplin também não. São educados como um bom cachorro, sabem ser somente companhia silenciosa. Só latem quando quero, quando a buscar um adjetivo no ar levanto os olhos da tela do computador. Cry Baby! Cry Baby!!! Nossa, como grita a Janis. Pensando bem, se um dia acontecer de eu
adotar um cachorro, não será um desses carentes, o chamarei de Chico mesmo.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Adiamento
Acordei animado e feliz. Queria
embalar a ocasião, mas distraído, ao invés de Minhas Músicas cliquei em Minhas Imagens.
Fica para amanhã.
Gabi
Existe coisa
pior do que não se lembrar de alguém que você nunca quis esquecer?
Acho que não.
O tempo faz
isso com a gente,
O tempo é
mais forte que a memória, é implacável.
Tão ruim
quanto não se lembrar é, quando se lembrar, perceber que esse momento tem sido
tão esporádico,
Trágico,
Mágico.
Por que só me
lembrei dessa vez?
E ontem?
Antes de ontem?
Antes era tão
fácil, simples, natural.
Hoje, às
vezes, chega a me parecer forçado;
Sinto-me mal,
Sinto raiva
de mim mesmo;
E a
consciência,
Ah, o pior é
a consciência.
Não só por
que dói,
Mas por que
me diz que talvez seja melhor assim.
Antes, a
lembrança era dolorida.
Mas sinto
falta é dessa dor,
Acho que
trocaria essa tranqüilidade por ela;
A dor;
A dor dava-me a impressão de amor;
Tranqüilidade
me remete à indiferença.
O que é pior?
Sei que não
deixei de ama-la,
Disso tenho
exata certeza.
Se a
lembrança é dolorida
Aceito,
Prefiro.
Pois ela
merecia cada lágrima;
Se for esse o
preço eu pago.
O esforço pra
lembrar não é vontade de esquecer,
isso é apenas metáfora, semântica, discurso, sei lá!
bla, bla,
blas da língua.
A realidade
não é assim, não é.
A realidade é
o amor,
Tão real
quanto a sua ausência,
Mas muito
mais forte que ela.
Saudades sempre, moça.
27/07/2010
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Verdades misturadas
Hoje acordei sonhando que
acordava no natal de 2002. Estava deitado em um colchão, no chão áspero de uma
casa grande de teto descascado e paredes rebocadas cor de areia. No sonho eu
era garçom e atendia a mesa dos meus tios oferecendo-lhes: – Céu ou inferno
senhores? Eles nada respondiam e eu trazia água, mas agora a memória me impede
de saber se doce ou salgada. Havia uma mulher e havia eu. Éramos Greta Garbo e
Chico Buarque. Ela era o Chico, e vinha em direção à minha mesa. Enquanto eu
mostrava rapidamente meus joelhos brancos numa cruzada de pernas ele repousava em
minhas mãos o cardápio, que já posicionado diante dos meus olhos apresentava as
especialidades da casa: céu e inferno. Hesitando, sem saber o que escolher, olhei
para o lado enquanto acendia um cigarro procurando na fumaça da primeira tragada
as respostas para a minha vida desgraçada, refletindo. Por que a gente não consegue
escrever sem usar clichês? Foda-se, ninguém vai ler mesmo. Ao meu lado uma
criança chorava estridentemente uma música dos Beatles. Já não escutava mais
aquele choro quando vi que Greta ainda me olhava, serena. Não entendia por que
ela cruzava as mãos sobre os seios de um jeito estranhamente mórbido, como
estivesse num caixão, mas não quis perguntar, não sei falar com artistas. Além
de tudo o Chico me intimidava. Nessa hora eu já era eu mesmo e só percebi
quando notei meus joelhos escuros, a perna ainda estava cruzada. Minha
masculinidade se manifestava de um jeito diferente, de outra forma, por outro
lugar. Revelava-se na forma de um não reclamar das escaras que me consumiam as
costas já grudadas à quase seis meses naquela cama de hospital. Eu tinha o
Pequeno Príncipe nas mãos e só faltavam algumas páginas para terminar, lia
devagar pois o tempo fugia, quando saí de casa não imaginei que as horas demorassem
tanto a passar num hospital. Há alguma magia naquelas paredes brancas. No momento seguinte eu estava sentado na cadeira de acompanhante, admirava uma feia paisagem pela janela e sentia o vento no rosto, era domingo a tarde. Somente quando
olhei para cama me dei conta de que as escaras eram do meu pai, o Pequeno Príncipe do meu avô, a Greta Garbo de um livro recente enquanto o Chico era do João ou
do Janderson, já não me recordo quem baixou a discografia. Com os olhos entreabertos, meio acordado, agora
redescubro: na realidade o emprego de garçom foi durante a fase-João, o Janderson foi namorado da Ana e não tem nada disso de Chico. Internações, escaras e recomeços se
misturam na minha cabeça e a memória, perdida, já não sabe mais que sonho
sonhar. Já de pé, a frente do espelho, no banheiro de uma casa hoje pequena e
bem acabada eu resolvo escrever o sonho maluco. Decido chama-lo de realidades misturadas.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Atropelo
Odeio essas
mortes seguidas, apressadas, sobrepostas. Em intervalos tão curtos nunca tive
tempo de oferecer a merecida e necessária devoção a cada um deles.
Apenas Gabi
foi respeitada, ao menos até a marca dos cinco anos, pois aos dez já chegará
acompanhada, aliás, mais que a mim. Meu pai, que tanto gostava de sua caçula,
deu a ela esse tempo. Permitiu que fosse chorada. Se não o suficiente, que esta
é medida que nunca se alcança, ao menos satisfatoriamente. E só depois morreu.
O João,
embora fosse inteligente e sensível, não teve esse cuidado. Padecendo da
precipitada índole adolescente, na qual se eternizou, nos abandonou enquanto
meu pai ainda se destacava na área de trabalho e servia de inspiração para que
a Ana desenhasse corações no mouse pad. De luto, o violão do menino manteve o
preto enquanto o cavaquinho nunca mais chorou.
Assim, para a
tela do computador a solução foi uma foto de toda a família, tirada na minha
formatura no final de 2009. Nela, Gabi era uma rosa branca na mão direita da
minha mãe, linda. Ninguém a esquecia, óbvio, mas mamãe tinha dessas sacadas.
Nesse caso ela repetia o que fez no natal de 2004.
Meu pai,
portanto, não foi muito chorado, escrito ou desenhado. Não houve tempo para que
todas as lágrimas caíssem, do que evidentemente ele perdoa o João. Conquanto
lamentasse nosso sofrimento, o velho estava feliz por ter ao lado seus dois
caçulas. Para sempre seria no céu o pai clássico, pai de crianças.
Porém, daí em
diante, o João foi o senhor dos meus escritos. Fossem patéticos, melancólicos,
desesperados ou suicidas, todas as letras revelavam sua imagem. Era ele o meu
novo santo, para quem eu rezava todas as horas do dia. No entanto, embora meu
pai não se importasse, eu me culpava por não me lembrar dele, mas ele era pai e
é do destino dos pais morrerem, e não dos irmãos. Por isso a partida do João
era diferente e mais dolorida. De onde estava, meu pai continuava compreensivo,
e me entendia.
Dessa forma,
respaldado pela benção paterna, mantive o João na ordem do dia e segui vivendo
a morte daquele menino de 15 anos, que ao invés de ansiar beijar, jogar futebol
ou estudar, foi atinar de morrer. Magnífico morrer aos 15, sem nem imaginar a
pressão da vida adulta. Invejável, mas não original, Gabi foi quem primeiro
teve a ideia.
Assim, ao
João dediquei um blog, uma pasta de fotos e vários lamentos no meu caderno da
faculdade. Contudo, numa noite de segunda-feira, fui surpreendido com a Ana
pedindo-me algumas palavras. Constrangida, pois não teve coragem de faze-lo
pessoalmente, deixou-me apenas um bilhete na forma de uma casa silenciosa, que
demorei a entender. Só a pouco aprendi a ler o vazio. Sua ausência é uma mensagem
permanentemente renovada pelo silêncio.
Como solução
para a área de trabalho mantivemos a mesma foto, de dezembro de 2009, onde
ostento uma camisa listrada e estamos todos sorrindo. Por vezes, na saudade da madrugada,
distraio-me a observá-la, e alucinado, nostálgico, triste, imagino que mamãe
segura um buquê de filhos.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Choroso
Agora dei pra chorar com
tudo. Teria eu ficado assim não fossem tantas tragédias familiares? Não sei. Observo
minha infância e acho que sempre fui sensível, diferente do restante dos meninos. Fingia ser o menino clássico, é claro, mas não convencia muito. Dei-me conta da vocação para o choro a pouco, lendo
uma crônica. Meus olhos se encharcavam enquanto o autor relatava o aniversário
da mãe idosa, com câncer, prestes a morrer. Talvez tenha sido a menção à morte,
palavra chave nessa minha existência. Impossível me explicar sem citar a morte,
já nem me lembro de quantas tive. Talvez tenha sido a menção à mãe. Família
também é outra palavra que, a meu lado, é um palavrão. Quando escuto, tenho sempre que me segurar
para não recordar as fotos com pessoas jovens que mal sabiam que ali, na frente
da máquina, selavam seus destinos: ocupar uma prateleira na sala. É isso, agora
percebo, é a referência à família. Ao menos o cronista não mencionou nada além
dele e da mãe. Famílias grandes são uma verdadeira ofensa, um despudor. Tudo
bem, eu mereço, pois quando a minha era grande e completa eu me gabava mesmo,
tirava onda, já que além de tudo eu era o mais velho. Tinha cargo e tudo mais.
Primogênito, exemplo, essas coisas. E me sentia importante com isso. Hoje é
diferente. Escuto calado, não tenho cacife para tirar onda com ninguém. Qualquer
adesivo de família feliz num vidro traseiro já me desconcerta, porém,
forte – como dizem que sou – não choro, apesar da vontade.
domingo, 6 de janeiro de 2013
s.f. 1. Ato de perder ou perder-se
A perdição é uma maldição, um
vício. Como um alucinógeno ela assusta e atenta. Depois de se perder pela primeira
vez sentirá vontade de continuar sempre perdido. A tendência é se embrenhar
cada vez mais profundamente nessa floresta escura que é a reflexão. É que o
mundo de respostas prontas e acabadas deixa de ser interessante e seguro. Torna-se
incômodo. Ele se revelará falso e ainda cada vez mais falso a cada nova
aventura na perdição. Essa, se não cintila verdade, ao menos não finge ser
outra coisa. Nunca lhe prometeu segurança, e essa sinceridade é extremamente
atraente. Há sempre dúvidas na realidade dura, lacunas, perguntas irrespondíveis. A perdição é a dúvida, essa é a sua verdade. Nela não há certeza, não existem mães, ciência ou Deus. Se quiser um, tem de ser você
mesmo. Em geral, nessa floresta, as pessoas preferem não ser Deus. É disso que
fogem ao caminharem sem bússola e sem lanterna. Andam pra dentro. Passos lentos
ou rápidos, não importa, fato é que não tem volta. Não há por que deixar
migalhas no chão se você não vai sentir vontade de voltar. Lamentará por alguma
ou outra pedra e então se lembrará do chinelo esquecido, mas não chegará a
olhar pra trás. Cansado, talvez você encoste-se a um arbusto, ofegante, mas apenas tempo suficiente pra não fazer escolhas e logo voltará a vagar, perdido.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Minhas imagens
Aqui a tristeza é senhora. Não sou eu quem avisa, mas um coração tão machucado que de tanta ferida já
desistiu de se recuperar ou de sentir raiva da vida, do mundo, de tudo, e hoje
apenas espera, deixa o tempo passar. O que não tem remédio, remediado está.
Resignado, ele acorda diariamente sem entender o porquê de tanto sol, tanta
festa ou música, mas se levanta e cumpre seu papel. Sorri, cumprimenta, festeja
e nunca deixa de responder que está tudo bem. Ele já descobriu o trabalho que
dá dizer a verdade, bem como sua ineficiência, a verdade não muda nada. Hoje,
sozinho, sem ter com quem dividir fracassos e sucessos, divide seu tempo entre atividades
banais entrecortadas por pensamentos tristes que não hesitam em aparecer a
qualquer hora do dia ou da noite. Não há onde se esconder, no almoço, no banho,
na mesa de boteco ou no sexo, eles sempre estão lá. O cérebro sabe que existem
milhares de outras imagens melhores e mais bonitas daquelas pessoas, fotos de
seus sorrisos, aniversários e formaturas, mas sádico, insiste em enviar somente
as mais cruéis ao coração. Insiste nos cemitérios, hospitais, necrotérios e
assim o coração sucumbe, não aguenta, e quando pode, chora. Afinal, não se pode
chorar numa festa de aniversário. Enquanto os olhos avistam balões, bolo e
cerveja, o coração, distante, continua a revirar as piores imagens registradas
nesses 28 anos de hd. E chora sozinho. Inchando como as bolsas dos olhos, ele vai
ficando cada vez maior e maior, até não mais caber na caixa do peito. Ainda na
festa, os pés, sempre prestativos, levam o corpo rapidamente para o banheiro ou
qualquer outro lugar afastado de toda gente para o coração se aliviar. Através
dos olhos, pressionado por soluços semi-desesperados o peito se esvazia e o
coração, mais aliviado, volta a respirar tranquilamente. Envergonhado, ele pede
desculpas ao restante do corpo que sorrindo amarelo demonstra entender. Enquanto
o coração enxuga os olhos, todos se voltam para o cérebro, o recriminando.
Precisava mandar aquelas fotos naquela hora? Enrugado, ele se defende dizendo que
por mais que tente não consegue acessar os outros arquivos. As pastas felizes
estão protegidas por senha, alega cabisbaixo. Se ele não tem controle, ninguém
mais naquele corpo teria. Condenados, todos voltam à festa torcendo para que
o rosto consiga disfarçar a angústia da nova revelação.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Máscara
Lá fora o sol, radiante, no
bar lotado um monte de gente alegre e no meu rosto até um sorriso se abre. Ao
mesmo tempo sincero e falso. O coração, sozinho, esconde no peito sua tristeza, perene, incurável, eterna.
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