segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Miserável


Enquanto devoro em minha leitura matinal as angústias da autora que admite só com sofreguidão sua infelicidade, só penso em escrever. Invejoso, impaciente, inquieto, balanço as pernas no sofá, ansioso por despejar no papel as minhas angústias. Gosto, mas não preciso ler a dos outros, saber das dos outros, já as tenho em bom número, e em boa conta. Gosto das minhas angústias, alimento-me delas vorazmente, geralmente de madrugada, mas nessa manhã também. É que hoje ela sentiu sede e veio logo que acordou tomar água, comer alguma coisa, se alimentar de mim. Sou eu que me alimento de mim, embora não me suporte, não me tolere, não me importe e não goste desse gosto de noite da minha língua. Sabor de fracasso, fraqueza, franqueza. Franqueza que só encontro nas palavras, somente escritas, pois as ditas levam na cauda a mentira necessária do dia-a-dia social, mas não pessoal. Nunca sou eu que falo, é outro, outro estranho eu, um eu social, feliz, sorridente e que olha para frente. Escrevo por que preciso, escrevo por que gosto, gosto de escrever e publico o que escrevo por que sou vaidoso. Escrevo bem? Escrevo mal? Preciso de reconhecimento, admito, maldita vaidade. Mas se escrevo para expressar-me, para ser lido por mim mesmo, para ler e entender esse eu pessoal, para que preciso de reconhecimento? Para que publicar? - Vaidade. Sou interno e externo, pessoal e social. Gosto de escrever e é o que acho que faço de melhor, ler e escrever, mas quanto mais escrevo mais tenho medo de escrever e acho que minha escrita tem piorado a cada linha. Poderia viver disso, já que gosto, mas por que tudo o que gostamos tem de ser colocado a serviço de fazer dinheiro? – Para poder viver. Ser cotidiano é fazer dinheiro. Para poder continuar escrevendo, lendo e assistindo a filmes que são necessários para eu continuar frequentando os grupos que gosto. – Já viu o novo filme do Almodovar? Merda de vida vazia. Aff... cansei de escrever, posso voltar agora para a angústia da autora, pobre diaba, parece ter sofrido bastante, me identifico tanto. Mais tarde, com ares de desabafo, publico essa merda aqui. E dissimulando propósitos inadmissíveis escolho cautelosamente os marcadores, a fonte e um tamanho de letra que facilite a leitura, esperando do ledor - quem sabe - alguma sorte de elogio. Sou um miserável.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Leituras

Fernando Sabino é um autor perigoso. Sua escrita - de tão deliciosamente simples - me faz crer que também posso. Já a Clarice me coloca no meu devido lugar.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Conjugal


O problema da Marieta é que ela nunca escutou o Chico.

Vaidade


Aquilo que, no metrô, faz-me escolher sempre o banco a frente da porta espelhada.

Desalento


Desalento é uma palavra tão esmorecida quanto o próprio sentimento.

Mesmo a sorrir


Há pessoas que tem cara de choro, enquanto outras estão sempre chorando.

Dignidade

Morreu de forma digna, disseram todos os amigos, mesmo os mais abalados. Nos últimos anos de vida havia decidido se isolar, mudando-se para o interior e vindo à cidade somente para responder aos chamados burocráticos. Ainda era jovem quando decidiu-se pelo isolamento, beirava a casa dos vinte anos quando por infelizes coincidências teve pela morte retirado o direito de conviver com seus irmãos. Sendo o mais azarado deles, coube-lhe ficar, para que tal qual uma estátua simbolizasse a desgraça daquela família.

Durante a infância era visto como uma criança inteligente, depósito de esperanças e de um futuro promissor. Sem motivo aparente já escondia no peito certa vocação melancólica, expressada na timidez e nas longas horas de futebol solitário com o muro do terreiro. Sozinho, ele era o time inteiro, do atacante ao goleiro, de forma que assim foi aprendendo a se bastar. Manifestava também no gosto pela leitura alguma introspecção, hábito interrompido temporariamente em função de um moderno vídeo game, que também jogava sozinho.

Quando a mãe anunciou um irmãozinho, foi impedido pelo ciúme de compreender de imediato o valor daquela companhia. Além do que, ele já tinha onze anos, para que serviria um irmão com dez quando eu tiver vinte? - Ninguém brinca com 20 anos, pensava. Porém, pudesse ver o futuro não haveria reclamado. Em dez anos, sem que percebesse, a vida moldou não um irmão, desses chatos que só servem para disputar com a gente o amor da mãe ou a bandeja de iogurte, mas um amigo, no sentido mais intenso do termo. Claro, de fato não pode com ele jogar futebol, mas pode conversar. Ah, e como conversavam. Aquele menino não tinha dez, mas vinte, trinta, sessenta anos se fosse preciso, encerrava em si todas as idades de modo que sua companhia atendia a qualquer necessidade de comunicação do irmão mais velho. E que futuro!

Futuro? De tão inteligente o menino envelheceu tão rápido que nem esperou o avô, metendo-se de surpresa na fila preferencial e deixando o irmão mais velho novamente sozinho no terreiro, ele o muro. Contudo, desanimado, agora já não chutava com tanta força a bola na parede, e ela quase não voltava ao seu encontro. Quase ninguém vinha ao seu encontro.

Embora os amigos o procurassem com avidez, não o encontravam em lugar algum. Quanto mais avançavam os meios de comunicação, mais afastado se via dos amigos e pessoas que gostava. Pura opção, não era difícil perceber, e todos perceberam. Perceberam também que ele se matava aos poucos, primeiro socialmente, e ainda que evitassem pensar nisso, sabiam que a próxima morte seria física, material, dessas com caixão, piadas e café forte a noite toda.

Entretanto, mais rápido que ele foi a irmã. Engenhosa, fingiu uma formatura, namoro, emprego, tudo para articular uma ideia de futuro e faze-lo acreditar que planejava viver muito para acompanhar a mãe até os últimos dias. Pura mentira, engenhosidade, esperteza. Maquinou tudo na agenda que nunca saia da bolsa, onde, com meticulosa discrição, escolheu e marcou a data, mês, horário, cuidando para que ninguém pudesse evitar a realização do plano. Novamente ele foi pego de surpresa.

Daí é que comprou o sítio, numa cidade afastada de Belo Horizonte, lá pelos lados do aeroporto, escondida no fundo do coração. Interiorana, chuvosa, a cidade tinha acesso difícil. Sem telefone, Facebook ou caixa de correio, foi ali que se escondeu até seus derradeiros dias, quando sentado numa cadeira de madeira antiga, escura, meteu na cabeça uma bala de revólver.

Quando no fim da tarde de sábado foi encontrado pelo caseiro uma mosca nojenta já repousava na boca aberta, feia, enquanto o sangue escuro escorria detrás da cabeça por entre os cabelos longos e bonitos. Por ironia, dessas que só a vida sabe tecer, ao contrário da cabeça tão elogiada, foi o coração - algoz de todos os irmãos e que tanto que lhe apertara durante a vida - que chegou ao fim daquela história intacto.  Na verdade, chegou forte como tinha de ser, de outra forma não suportaria tanta tristeza. Nessa mesma noite, estendido na mesa iluminada, ele ouvia com um sorriso desenhado aquelas palavras amigas de compreensão. - Morreu de forma digna.

Infidelidade


“Poesia não é tentar trepar pelas paredes, é trepar mesmo pelas paredes.” Lia sorrindo no livro rosa do Mário Quintana enquanto se encaminhava ao centro da cidade. O metrô estava vazio e sem dificuldade pode sentar-se, como de costume, de frente para o vidro espelhado. Sua vaidade, a cada túnel, saia de trás da porta para que ele pudesse conferir o cabelo. Além da leitura, a música no último volume completava a redoma que o levava seguro ao encontro da namorada. Ali dentro nada o importunava, saia somente para ajeitar o cabelo e os óculos na porta envidraçada, dominava tão bem o trajeto que não precisava pensar para achar os túneis, eles é que o achavam no intervalo de alguma estação.  Quintaneando, sozinho, consumia distraído o seu caminho.

De repente, a deleitar-se com alguma sacada do amigo poeta, levantou do livro os olhos risonhos rompendo num só pensamento sua bolha protetora. - Linda! Antes que ela o fitasse de volta, rapidamente laçou pela cauda os olhos, trazendo-os - a tempo - ao abrido do poeta que ria maliciosamente. Quinze minutos depois, num beijo ardente, cumprimentava sua amada na saída da estação central.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Cão e gato


Maldita saudade. Sorrateira, só me ataca a noite, quando ninguém há por perto.
Benvinda saudade, manhosa. Como um gato, sabe que lhe dou mais atenção à noite.

Durante o dia está sempre se esquivando, mal aparece para tomar água. Ao desatento visitante parece que moro sozinho, eu e a indiferença. Odores? Nem bons nem maus.

Nenhum pelo no chão, nenhuma almofada rasgada. Eu remendo todas logo ao me levantar que é pra não ter de responder às perguntas tolas que ninguém faz.

Das madrugadas agitadas? - Não, ninguém pergunta. Também não dá pra saber. Ela chega, toma da água, come alguma coisa e logo parte. Às vezes fica.

- Sim, sim, fui eu que adestrei. Minha saudade é tranquila, meu choro é que é escandaloso. Filhote, ele ainda é muito intempestivo. Não resiste vê-la chegar e sai latindo alto atrás dela.

- Ela? Nada, nem liga. Sobe no guarda roupas e fica lá, indiferente, lambendo a pata até de manhã. Eu nem noto quando se vai, e só a vejo na noite seguinte.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Sabe dessas belas histórias de amor?

Sabe dessas belas histórias de amor, geralmente de velhinhos, em que quando um morre o outro geralmente não vive por muito tempo? Então, eu vivi uma dessas histórias, porém a minha foi mal sucedida, já que eu mesmo fiquei pra contar.

Talvez a explicação esteja em um fato da minha infância, quando eu passava férias na casa da minha avó. Nessa ocasião, minha tia convidou uma cigana para ler seu futuro e trancaram-se no quarto por quase uma hora. Meus dois primos e eu ficamos curiosíssimos com aquilo, e ela, quando já ia embora, como nos desse um doce, leu somente a linha da vida de nossas mãos, ali no terreiro mesmo, perto do portão.

Sem rodeios, e com uma cara pouco confiável, disse ao mais velho que ele não viveria muito. Ao segundo e a mim, metaforizou, enquanto resumia dois destinos em apenas uma sentença: – Vocês vão contar as histórias da família Heliodoro. Eu não entendi muito no dia, mas gostei de saber que viveria bastante, era ainda criança ou adolescente e a ideia de me tornar adulto ainda me agradava, e na palma das minhas mãos estava a garantia que de isso aconteceria.

Mas assim como meu pai, a cigana também se esqueceu de me contar a verdade a respeito da vida adulta. E omitindo o que de fato me aguardava não explicou o que aquela frase significava. Naquele momento eu também não entenderia, até então minha vida era só vida, vida, vida,... criança né.

Na verdade, ela não quis dizer que eu viveria, apenas que eu contaria as histórias, é diferente. Queria dizer que, ao contrário dos velhinhos viúvos, eu não poderia acompanhar os amores que perderia. Talvez por que fossem muitos e alguém devesse ficar para chorá-los, ou talvez por que não precisassem da minha companhia.

Sozinho, eu tive de ir ficando, acostumando-me, vagando entre as fotos da sala e lembranças de abraços. Alguns velhinhos - coitados, assim como eu, também são condenados a ficar por aí sendo as almas penadas deste mundo. Como consolo, eles ao menos ostentam um título: viúvos. Ao contrário daqueles que perdem irmãos, nomeados somente pelo silêncio da casa.

Mas do que é que eu estou reclamando. Se ainda não inventaram um nome para as mães que perdem filhos, o que eu quero como irmão?

Diário


Angústia, aflição, tormenta. É a noite que chega. Agitação, tumulto, tristeza. A madrugada. Resignação. Sono.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Viagem

A imagem do metrô chegando em curva é tão bonita que eu penso que essa devia ser a arquitetura de todas as estações.

Diálogo 2

- Pai, para que servem os irmãos?
- Não sei filho, ainda tô descobrindo.

Diálogo

- Tio, por quê colocam plástico sob a blusa dos defuntos?
- Pra nos lembrar que o coração não tá mais aí.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Que raiva de todo mundo!


Essa frase não pode ser dita, nem escrita, é proibida. É que todo mundo entra aqui e ao ler isso fica bravo, ou brava. O problema é que todo mundo é egocêntrico, e acha que o mundo gira ao seu redor, assim, quando eu digo todo mundo, todo mundo acaba sempre achando que é com ele, ou com ela. Todo mundo não tem gênero nem orientação sexual, pode ser ele e pode ser ela. Indiferenciação, esse é o pior de todo mundo, sempre dá margem para inclusão. Por que todo mundo é todo mundo, não tem fora, e quando eu sinto raiva de todo mundo é de todo mundo - mesmo! - que eu sinto raiva. Todo mundo não tem exceção. Todo mundo é tudo, todos, eu inclusive. Ah, mas que raiva todo mundo, sobretudo por que ninguém nunca entende. Ou seria alguém nunca entende? Não, alguém é muito específico, e a minha raiva não é direcionada, ela é de todo mundo. Quem sabe ninguém seja melhor? Até por que, eu penso agora, se tenho raiva de todo mundo o problema pode estar comigo, portanto, com ninguém. É melhor não pensar assim, azar é de todo mundo, que raiva. Aliás, todos vocês, sem distinção, só me fazem raiva com essa incapacidade de entender que raiva de todo mundo é bem mais a expressão de algo inexpressável, de uma angústia indirecionável e de um temor inconfessável, do que verdadeiramente um sentimento ruim dirigido a todos ou a alguém que conheço. É de, não é contra. Espero que dessa vez tenha dado para entender. Apesar que o meu problema ninguém consegue resolver, nunca apareceu alguém que resolva.  Pensando por esse lado a culpa também é de todo mundo, malditos incompetentes, que raiva. Que raiva de todo mundo!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Créditos

"A esperança é um urubu pintado de Verde."

Mario Quintana, em Da preguiça como método de trabalho.

Aniversário

- E aí, o aniversário dela, como passou? Ah, pensei que fosse ser pior, mas a gente vai levando, sem nem saber que dá conta. Não, esse diálogo não existiu. Ele já sabia que haviam assuntos proibidos no mundo dos homens e não precisava de mais uma prova, no entanto a vida fazia questão de lembra-lo. Aliás, corajosa, a vida era a única. Era a única a lhe tocar a ferida.

Os homens nunca o falavam do passado, temiam fazê-lo chorar.  Ingênuos, não imaginavam que falar do futuro é que o cortava a espinha. O passado, embora não fosse todo felicidade, a seu favor trazia a certeza do fato acontecido, enquanto o futuro... Ah, o futuro. O futuro parte do infinitivo, exige fazer, realizar, planejar, trabalhar, estudar, pesquisar. Acontecer. Um verdadeiro chato que não para de dar ordens. E dos pés à cabeça aquele homem era só passado. Sua esperança um urubu pintado de verde. Ora, e qual o problema de chorar? Chorar. Respeitava sem entender. Mas fato é que o dia passou, besta, invisível como uma terça-feira.

Deus

Às vezes acho patético seu esforço de continuar vivo. Será que Ele não percebe que é melhor como metáfora do que como primeira pessoa da Trindade?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Te mo


Andava com preguiça das pessoas. Não encontrava em nenhuma delas a culpa de seu fracasso, de sua desgraça. Nem para isso serviam, reclamava em pensamento. Para o futuro, só carregava uma certeza, a de que iria se arrepender. Como não fosse tão tolo e se conhecesse bem, sabia que entenderia seus motivos. Fazemos sempre o que tem de ser feito, era um de seus mantras. Na faculdade aprendera que o passado deve ser julgado sempre em seus termos, o que utilizava mais em beneficio próprio que profissional.

Assim, fora compreendendo – e respeitando – a trajetória dos pais, dos amigos, e de quem lhe interessava respeitar. Contudo, dessa vez sabia: iria se arrepender. Era uma revelação. Quando, daqui a alguns anos, revolvesse o passado, entenderia, porém não sem tristeza, não sem remorso. E agora? Sofria por antecipação ao projetar-se no futuro sorvendo do presente esse passado que ainda não passou? Precisava disso? Talvez. Quem sabe dessa forma o evitasse tomando novas atitudes – ou alguma atitude. Ou talvez não, como seria mais provável.

Em verdade, como se lhe faltassem motivos, antecipava-se somente pelo prazer de sofrer. Idiota. Nunca soube transformar limão em limonada e desde criança terminava sempre com a boca machucada, em carne viva. Ia chupando aquele negócio, comendo o bagaço e matando a fome e a sede de melancolia que sempre teve. Depois da tempestade, sorria, trazendo ainda as cicatrizes que denunciavam a falta de cuidado adequado. Era feio. Não era difícil notar que as feridas curavam-se sozinhas, por iniciativa do corpo e não do sujeito, sem a menor ajuda de alguma parte pensante.

E hoje a história se repetia, com a única diferença de que previa com temor o futuro que ele mesmo se reservava. Quem beijaria aquela boca amarga? Quem ostentaria a amizade daquela cara enrugada? Quem encostaria-se àquele rosto fétido, ainda exalando o mau cheiro de feridas antigas? Ninguém. Desanimado, deitou-se na cama. Resignado, buscou entender sua falta de forças, e encontrou motivos, mas só o suficiente para se levantar com dignidade na manhã seguinte. E dormiu enquanto tecia formas sombrias de fugir àquele destino.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Ignorância e heresia


O bom de não saber inglês é a liberdade de ler e ouvir música, simultaneamente. Um não interpela o outro. Se quiser, posso até escrever, como agora. A música, respeitosa, somente me observa. Ao contrário de Vinícius e Chico, Bob Dylan não me obriga a cantar. Janis Joplin também não. São educados como um bom cachorro, sabem ser somente companhia silenciosa. Só latem quando quero, quando a buscar um adjetivo no ar levanto os olhos da tela do computador. Cry Baby! Cry Baby!!! Nossa, como grita a Janis. Pensando bem, se um dia acontecer de eu adotar um cachorro, não será um desses carentes, o chamarei de Chico mesmo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Adiamento


Acordei animado e feliz. Queria embalar a ocasião, mas distraído, ao invés de Minhas Músicas cliquei em Minhas Imagens. Fica para amanhã.

Gabi


Existe coisa pior do que não se lembrar de alguém que você nunca quis esquecer?
Acho que não.
O tempo faz isso com a gente,
O tempo é mais forte que a memória, é implacável.
Tão ruim quanto não se lembrar é, quando se lembrar, perceber que esse momento tem sido tão esporádico,
Trágico,
Mágico.

Por que só me lembrei dessa vez?
E ontem? Antes de ontem?
Antes era tão fácil, simples, natural.
Hoje, às vezes, chega a me parecer forçado;
Sinto-me mal,
Sinto raiva de mim mesmo;

E a consciência,
Ah, o pior é a consciência.
Não só por que dói,
Mas por que me diz que talvez seja melhor assim.

Antes, a lembrança era dolorida.
Mas sinto falta é dessa dor,
Acho que trocaria essa tranqüilidade por ela;
A dor;

A dor dava-me a impressão de amor;
Tranqüilidade me remete à indiferença.
O que é pior?
Sei que não deixei de ama-la,
Disso tenho exata certeza.

Se a lembrança é dolorida
Aceito,
Prefiro.

Pois ela merecia cada lágrima;
Se for esse o preço eu pago.
O esforço pra lembrar não é vontade de esquecer,
isso é apenas metáfora, semântica, discurso, sei lá!
bla, bla, blas da língua.
A realidade não é assim, não é.
A realidade é o amor,
Tão real quanto a sua ausência,
Mas muito mais forte que ela.

Saudades sempre, moça.

27/07/2010

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Verdades misturadas


Hoje acordei sonhando que acordava no natal de 2002. Estava deitado em um colchão, no chão áspero de uma casa grande de teto descascado e paredes rebocadas cor de areia. No sonho eu era garçom e atendia a mesa dos meus tios oferecendo-lhes: – Céu ou inferno senhores? Eles nada respondiam e eu trazia água, mas agora a memória me impede de saber se doce ou salgada. Havia uma mulher e havia eu. Éramos Greta Garbo e Chico Buarque. Ela era o Chico, e vinha em direção à minha mesa. Enquanto eu mostrava rapidamente meus joelhos brancos numa cruzada de pernas ele repousava em minhas mãos o cardápio, que já posicionado diante dos meus olhos apresentava as especialidades da casa: céu e inferno. Hesitando, sem saber o que escolher, olhei para o lado enquanto acendia um cigarro procurando na fumaça da primeira tragada as respostas para a minha vida desgraçada, refletindo. Por que a gente não consegue escrever sem usar clichês? Foda-se, ninguém vai ler mesmo. Ao meu lado uma criança chorava estridentemente uma música dos Beatles. Já não escutava mais aquele choro quando vi que Greta ainda me olhava, serena. Não entendia por que ela cruzava as mãos sobre os seios de um jeito estranhamente mórbido, como estivesse num caixão, mas não quis perguntar, não sei falar com artistas. Além de tudo o Chico me intimidava. Nessa hora eu já era eu mesmo e só percebi quando notei meus joelhos escuros, a perna ainda estava cruzada. Minha masculinidade se manifestava de um jeito diferente, de outra forma, por outro lugar. Revelava-se na forma de um não reclamar das escaras que me consumiam as costas já grudadas à quase seis meses naquela cama de hospital. Eu tinha o Pequeno Príncipe nas mãos e só faltavam algumas páginas para terminar, lia devagar pois o tempo fugia, quando saí de casa não imaginei que as horas demorassem tanto a passar num hospital. Há alguma magia naquelas paredes brancas. No momento seguinte eu estava sentado na cadeira de acompanhante, admirava uma feia paisagem pela janela e sentia o vento no rosto, era domingo a tarde.  Somente quando olhei para cama me dei conta de que as escaras eram do meu pai, o Pequeno Príncipe do meu avô, a Greta Garbo de um livro recente enquanto o Chico era do João ou do Janderson, já não me recordo quem baixou a discografia. Com os olhos entreabertos, meio acordado, agora redescubro: na realidade o emprego de garçom foi durante a fase-João, o Janderson foi namorado da Ana e não tem nada disso de Chico. Internações, escaras e recomeços se misturam na minha cabeça e a memória, perdida, já não sabe mais que sonho sonhar. Já de pé, a frente do espelho, no banheiro de uma casa hoje pequena e bem acabada eu resolvo escrever o sonho maluco. Decido chama-lo de realidades misturadas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Justificativa

Atropelo


Odeio essas mortes seguidas, apressadas, sobrepostas. Em intervalos tão curtos nunca tive tempo de oferecer a merecida e necessária devoção a cada um deles.

Apenas Gabi foi respeitada, ao menos até a marca dos cinco anos, pois aos dez já chegará acompanhada, aliás, mais que a mim. Meu pai, que tanto gostava de sua caçula, deu a ela esse tempo. Permitiu que fosse chorada. Se não o suficiente, que esta é medida que nunca se alcança, ao menos satisfatoriamente. E só depois morreu.

O João, embora fosse inteligente e sensível, não teve esse cuidado. Padecendo da precipitada índole adolescente, na qual se eternizou, nos abandonou enquanto meu pai ainda se destacava na área de trabalho e servia de inspiração para que a Ana desenhasse corações no mouse pad. De luto, o violão do menino manteve o preto enquanto o cavaquinho nunca mais chorou.

Assim, para a tela do computador a solução foi uma foto de toda a família, tirada na minha formatura no final de 2009. Nela, Gabi era uma rosa branca na mão direita da minha mãe, linda. Ninguém a esquecia, óbvio, mas mamãe tinha dessas sacadas. Nesse caso ela repetia o que fez no natal de 2004.

Meu pai, portanto, não foi muito chorado, escrito ou desenhado. Não houve tempo para que todas as lágrimas caíssem, do que evidentemente ele perdoa o João. Conquanto lamentasse nosso sofrimento, o velho estava feliz por ter ao lado seus dois caçulas. Para sempre seria no céu o pai clássico, pai de crianças.

Porém, daí em diante, o João foi o senhor dos meus escritos. Fossem patéticos, melancólicos, desesperados ou suicidas, todas as letras revelavam sua imagem. Era ele o meu novo santo, para quem eu rezava todas as horas do dia. No entanto, embora meu pai não se importasse, eu me culpava por não me lembrar dele, mas ele era pai e é do destino dos pais morrerem, e não dos irmãos. Por isso a partida do João era diferente e mais dolorida. De onde estava, meu pai continuava compreensivo, e me entendia.

Dessa forma, respaldado pela benção paterna, mantive o João na ordem do dia e segui vivendo a morte daquele menino de 15 anos, que ao invés de ansiar beijar, jogar futebol ou estudar, foi atinar de morrer. Magnífico morrer aos 15, sem nem imaginar a pressão da vida adulta. Invejável, mas não original, Gabi foi quem primeiro teve a ideia.

Assim, ao João dediquei um blog, uma pasta de fotos e vários lamentos no meu caderno da faculdade. Contudo, numa noite de segunda-feira, fui surpreendido com a Ana pedindo-me algumas palavras. Constrangida, pois não teve coragem de faze-lo pessoalmente, deixou-me apenas um bilhete na forma de uma casa silenciosa, que demorei a entender. Só a pouco aprendi a ler o vazio. Sua ausência é uma mensagem permanentemente renovada pelo silêncio.

Como solução para a área de trabalho mantivemos a mesma foto, de dezembro de 2009, onde ostento uma camisa listrada e estamos todos sorrindo.  Por vezes, na saudade da madrugada, distraio-me a observá-la, e alucinado, nostálgico, triste, imagino que mamãe segura um buquê de filhos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Choroso


Agora dei pra chorar com tudo. Teria eu ficado assim não fossem tantas tragédias familiares? Não sei. Observo minha infância e acho que sempre fui sensível, diferente do restante dos meninos. Fingia ser o menino clássico, é claro, mas não convencia muito. Dei-me conta da vocação para o choro a pouco, lendo uma crônica. Meus olhos se encharcavam enquanto o autor relatava o aniversário da mãe idosa, com câncer, prestes a morrer. Talvez tenha sido a menção à morte, palavra chave nessa minha existência. Impossível me explicar sem citar a morte, já nem me lembro de quantas tive. Talvez tenha sido a menção à mãe. Família também é outra palavra que, a meu lado, é um palavrão. Quando escuto, tenho sempre que me segurar para não recordar as fotos com pessoas jovens que mal sabiam que ali, na frente da máquina, selavam seus destinos: ocupar uma prateleira na sala. É isso, agora percebo, é a referência à família. Ao menos o cronista não mencionou nada além dele e da mãe. Famílias grandes são uma verdadeira ofensa, um despudor. Tudo bem, eu mereço, pois quando a minha era grande e completa eu me gabava mesmo, tirava onda, já que além de tudo eu era o mais velho. Tinha cargo e tudo mais. Primogênito, exemplo, essas coisas. E me sentia importante com isso. Hoje é diferente. Escuto calado, não tenho cacife para tirar onda com ninguém. Qualquer adesivo de família feliz num vidro traseiro já me desconcerta, porém, forte – como dizem que sou – não choro, apesar da vontade.

domingo, 6 de janeiro de 2013

s.f. 1. Ato de perder ou perder-se


A perdição é uma maldição, um vício. Como um alucinógeno ela assusta e atenta. Depois de se perder pela primeira vez sentirá vontade de continuar sempre perdido. A tendência é se embrenhar cada vez mais profundamente nessa floresta escura que é a reflexão. É que o mundo de respostas prontas e acabadas deixa de ser interessante e seguro. Torna-se incômodo. Ele se revelará falso e ainda cada vez mais falso a cada nova aventura na perdição. Essa, se não cintila verdade, ao menos não finge ser outra coisa. Nunca lhe prometeu segurança, e essa sinceridade é extremamente atraente. Há sempre dúvidas na realidade dura, lacunas, perguntas irrespondíveis. A perdição é a dúvida, essa é a sua verdade. Nela não há certeza, não existem mães, ciência ou Deus. Se quiser um, tem de ser você mesmo. Em geral, nessa floresta, as pessoas preferem não ser Deus. É disso que fogem ao caminharem sem bússola e sem lanterna. Andam pra dentro. Passos lentos ou rápidos, não importa, fato é que não tem volta. Não há por que deixar migalhas no chão se você não vai sentir vontade de voltar. Lamentará por alguma ou outra pedra e então se lembrará do chinelo esquecido, mas não chegará a olhar pra trás. Cansado, talvez você encoste-se a um arbusto, ofegante, mas apenas tempo suficiente pra não fazer escolhas e logo voltará a vagar, perdido.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Minhas imagens


Aqui a tristeza é senhora. Não sou eu quem avisa, mas um coração tão machucado que de tanta ferida já desistiu de se recuperar ou de sentir raiva da vida, do mundo, de tudo, e hoje apenas espera, deixa o tempo passar. O que não tem remédio, remediado está. Resignado, ele acorda diariamente sem entender o porquê de tanto sol, tanta festa ou música, mas se levanta e cumpre seu papel. Sorri, cumprimenta, festeja e nunca deixa de responder que está tudo bem. Ele já descobriu o trabalho que dá dizer a verdade, bem como sua ineficiência, a verdade não muda nada. Hoje, sozinho, sem ter com quem dividir fracassos e sucessos, divide seu tempo entre atividades banais entrecortadas por pensamentos tristes que não hesitam em aparecer a qualquer hora do dia ou da noite. Não há onde se esconder, no almoço, no banho, na mesa de boteco ou no sexo, eles sempre estão lá. O cérebro sabe que existem milhares de outras imagens melhores e mais bonitas daquelas pessoas, fotos de seus sorrisos, aniversários e formaturas, mas sádico, insiste em enviar somente as mais cruéis ao coração. Insiste nos cemitérios, hospitais, necrotérios e assim o coração sucumbe, não aguenta, e quando pode, chora. Afinal, não se pode chorar numa festa de aniversário. Enquanto os olhos avistam balões, bolo e cerveja, o coração, distante, continua a revirar as piores imagens registradas nesses 28 anos de hd. E chora sozinho. Inchando como as bolsas dos olhos, ele vai ficando cada vez maior e maior, até não mais caber na caixa do peito. Ainda na festa, os pés, sempre prestativos, levam o corpo rapidamente para o banheiro ou qualquer outro lugar afastado de toda gente para o coração se aliviar. Através dos olhos, pressionado por soluços semi-desesperados o peito se esvazia e o coração, mais aliviado, volta a respirar tranquilamente. Envergonhado, ele pede desculpas ao restante do corpo que sorrindo amarelo demonstra entender. Enquanto o coração enxuga os olhos, todos se voltam para o cérebro, o recriminando. Precisava mandar aquelas fotos naquela hora? Enrugado, ele se defende dizendo que por mais que tente não consegue acessar os outros arquivos. As pastas felizes estão protegidas por senha, alega cabisbaixo. Se ele não tem controle, ninguém mais naquele corpo teria. Condenados, todos voltam à festa torcendo para que o rosto consiga disfarçar a angústia da nova revelação.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Máscara


Lá fora o sol, radiante, no bar lotado um monte de gente alegre e no meu rosto até um sorriso se abre. Ao mesmo tempo sincero e falso. O coração, sozinho, esconde no peito sua tristeza, perene, incurável, eterna.