Gabi, meu pai, Ana,
João, pessoas. Pessoas que por vezes parecem nem ter existido. Essa é a raiva
que tenho, só hoje, de a bem pouco tempo, do Tempo. Esse meu ganha pão, esse lugar
onde vivo, sobrevivo, vago, caminho nos segundos do trabalho e me esqueço de todos vocês. Pessoas, o
Pessoa – o maldito sábio português – parece ter razão: o impulso vital apaga as lágrimas, pouco a pouco, quando não são de
coisas nossas, quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, por
que é coisa depois da qual nada acontece aos outros. É coisa depois da qual coisa só acontece à gente, depois da qual o mundo só acontece às gentes, quando restam
– aos cacos – as gentes que ficam, digo, que sobram. Gentes que, como eu, a despeito de saber que
não seja certo que nossa vida represente
qualquer utilidade – que conquanto sobreviva em cada sorriso a sensação de
que aquele sorriso é sempre menor do que poderia ser; que apesar do vazio da
casa, da noite e do violão ser interminavelmente alto; e que embora ser um
irmão sem irmão signifique mais que uma contradição, mas uma dor profunda, movedora de hercúlea desvontade de viver – como afirma Graciliano Ramos, é preciso viver...
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
domingo, 24 de novembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
123456789...12345678...1234...
Faz um ano que fazia um ano que fazia um ano. Espero que ano que vem não faça nada, e que os dias sejam só dias, e passem.
Proponho
Não, a dor não é proporcional à quantidade de linhas. Desperto, vejo que dor não tem proporção, tem tamanho. Coração é que proporciona.
Juntos novamente
Há certos dias em que minhas faltas se fazem mais presentes, e eu quase que sinto a ausência deles.
sábado, 16 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
um gosto só
Temendo transparecer o contrário, explico: não é por amor à literatura, aos autores, ao conhecimento ou pedantismo; tampouco apego às palavras, elogios à inteligencia ou ao poder que disso se extrai; mas por fracasso, necessidade, azar, por não saber fazer outra coisa, e hoje, sobretudo, por não poder fazer outra coisa é que sempre - e somente - me entrego à leitura. À quem a vida lega sozinho não resta senão a leitura só...e prazerosa.
solidão
Pra gente se desencontrar sozinho é melhor que o inconsciente saiba que os ausentes são possíveis.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
Minha alma não tem calma
Minha alma não tem calma. Mas
também não quer nada diferente. Talvez esquecer, ao menos às vezes, essa
deliciosa sensação de abandono que a falta de calma nos trás.
1/4 de pensamento tranquilo
Colocou uma música para o pensamento não ficar muito alto e pôs-se a arrumar no quarto apertado tudo o que
não precisava de organização. Volume apenas, não fuga. Ele não era de fugir. Claro, também não gozava dessa opção. Daqui pra lá, daquele canto pra cá, as coisas se
transferiam quase sozinhas, já que dele não tinham senão as mãos: o espírito
avoava. Perto, mas voava. Aquele silêncio musical era reconfortante, terrivelmente reconfortante,
dolorosamente. Assemelhava-se àqueles abraços antigos, então tão afáveis, reais. Hoje era o
pensamento. Ele era o pensamento, somente, e desarrumava o quarto apenas para pensar no
que pensava querer pensar. Buscava em verdade fazer-se acreditar na sensação de
que se sentia tranquilo. Tranquilamente, em suas mãos, as coisas do quarto
transitavam, de um lado a outro, tão somente para que ele falsamente se tranquilizasse. Se tudo é ilusão, por que não a tranquilidade, ele se perguntava e ficava então melhor. Eram boas as suas coisas, estavam sempre com ele, ao seu lado, tal como o quarto. Eram seres, e como é próprio dos seres sabiam - como ninguém - apenas estar. O estar é uma das melhores companhias a compartilhar, e suas coisas sabiam estar com ele. Não falavam uma só palavra enquanto a música tocava, senão um comentário ou outro nos intervalos. Como aquele da caixinha de bombom que viria a lembra-lo daquela noite de agosto do ano passado, silenciada após um olhar reprovador e o início da nova canção. Agravo pequeno, nada que tirasse da noite a definição que ele buscava, boa e tranquila. Naquele dia dormiu mais arrumado que o quarto: suas coisas o colocaram no seu lugar.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Legado
E eu que já pus nas mãos de Deus,
sob a pena de não mais nele acreditar, a vida de meu pai. Desculpe-me, pai, foi
o máximo que pude fazer para te deixar partir. Junto contigo foi se o resto
dessa minha crença, enquanto comigo ficaste a dor, o peso do mundo – agora ainda
mais pesado, e a liberdade: a liberdade de um por eu, só. Obrigado, pai, por ter ido com Deus. Legaste-me a liberdade.
Deste-me, assim, novamente, a vida.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
à ninguém
Estranho. Interesso-me por palavras exatamente no momento em que menos parecem dizer. Falseadas, aumentam em legitimidade. Valoram-se na
verdade do único dono. Se não há sentido absoluto, também não disputo parcialidades, fico com os meus. Falo sem pretensões de ser compreendido. De mim pra mim, são sempre
verdadeiras. E se entro no sistema, o faço apenas para subvertê-lo, para não
dizer. Meu comprometimento é comigo. Se não digo a você, faço-me, assim, a mim entendido. Me tranquilizo na desistência. Conformado, não mais mendigo por
compreensão, entendimento tampouco: pelo direito de dizer, talvez, e apenas - e somente a mim mesmo.
domingo, 29 de setembro de 2013
imperativo categórico manoelês
Só a poesia pode falar em verdade.
Somente em seus lábios a língua encontra relatividade suficiente para pronunciar essa falácia.
Daí a força do imperativo de Manoel:
"existem várias formas de não se dizer nada
- dentre as quais a tal ciência -
mas só a poesia é verdadeira".
Somente em seus lábios a língua encontra relatividade suficiente para pronunciar essa falácia.
Daí a força do imperativo de Manoel:
"existem várias formas de não se dizer nada
- dentre as quais a tal ciência -
mas só a poesia é verdadeira".
merecia até outro nome
Domingo devia de ser só manhã
mesmo pra quem acorda tarde.
Tarde de domingo já não é domingo
é um adomingo
Chega às vezes ser pior que a segunda
é um não lugar
um morrer de véspera.
Domingo devia de ser só manhã.
Essa sensação de tranquilidade vazia
da forma mesma que toda tranquilidade
devia de ser: esvaziada.
Um não delicioso não ser
ou não estar.
O domingo de manhã é a sensação de um tempo que não passa
passando.
O não estar do domingo a tarde é cheio
angustiado.
Nem falo da noite.
Bom é o vaziamento do domingo de manhã
principalmente quando chove.
Aquele ar carregado despreenche meu ser.
- É tão bom!
mesmo pra quem acorda tarde.
Tarde de domingo já não é domingo
é um adomingo
Chega às vezes ser pior que a segunda
é um não lugar
um morrer de véspera.
Domingo devia de ser só manhã.
Essa sensação de tranquilidade vazia
da forma mesma que toda tranquilidade
devia de ser: esvaziada.
Um não delicioso não ser
ou não estar.
O domingo de manhã é a sensação de um tempo que não passa
passando.
O não estar do domingo a tarde é cheio
angustiado.
Nem falo da noite.
Bom é o vaziamento do domingo de manhã
principalmente quando chove.
Aquele ar carregado despreenche meu ser.
- É tão bom!
sábado, 28 de setembro de 2013
uma bela correteza
Já percebi que só sei ler os meus poemas
nos dos outros erro no canto, na rima e na cor
entono sempre na pedra errada.
Ventalizo verbos
e quase sempre esqueço de verbalizar substantivos.
Esqueço que poeta erra a vera
e de primeira acabo por corrigir as invenções deles.
Mas depois
quando descorrijo
os invejo
É cada verdade bonita!
nos dos outros erro no canto, na rima e na cor
entono sempre na pedra errada.
Ventalizo verbos
e quase sempre esqueço de verbalizar substantivos.
Esqueço que poeta erra a vera
e de primeira acabo por corrigir as invenções deles.
Mas depois
quando descorrijo
os invejo
É cada verdade bonita!
O menino que virou palavra
Depois da irmã que virou cor, contarei a história do menino que virou palavra. Também meu irmão.
uma poesia por dia
Escrevo, desde que nasci, uma poesia por dia
Um dia, desde que escrevi, uma poesia nascia
Uma poesia escrevi desde que um dia nascia
Desde que um dia nascia uma poesia escrevi
Que desde uma poesia escrita um dia nasce
Poesia escrita nasce desde que um dia dia.
Um dia, desde que escrevi, uma poesia nascia
Uma poesia escrevi desde que um dia nascia
Desde que um dia nascia uma poesia escrevi
Que desde uma poesia escrita um dia nasce
Poesia escrita nasce desde que um dia dia.
entre permanências e nuncas
Nunca esqueci dos meus abandonos de infâncias,
cresci sem ser esquecer.
Por isso inda sou todos eles.
Eu só cresci
e ainda nem fui.
Sou abandonado de ser.
poesia é um nada lotado de felicidade
Faço duas coisas na vida.
Uma é poesia
a outra é viver.
Quando vivo eu como,
rio, transo, gozo,
bebo, festejo,
trabalho e
estudo.
quando faço poesia sou feliz.
é
A gente só é mesmo,
objetivado, definido, definitivo,
na morte:
quando aí o seu ser não muda mais.
Aí a gente vira é,
ou foi.
A gente só é de fato quando encerram as possibilidades de será.
Futuros impedem nosso ser.
- É é uma coisa que quero ser!
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
apalavrado
Houve uma época que eu escrevia tudo o que eu via
era o tudo que virava palavra
embora às vezes o nada eu também palavrasse.
Escrevi uma namorada
um irmão
até palavra eu escrevia.
Desenhava de tudo em palavra.
No computador,
na máquina,
no lápis,
todo desenho eu desenhava em palavra.
De alguns eu gostava mais do desenho palavra que do desenho visão.
Não digo que era mais bonito
eu que gostava mais.
Só não permitia que palavra diminuísse os desenhos visões.
Tem alguns tão bonitos que parecem palavras
como entardecer
ou garça - né Manoel.
Palavra, pra se arriscar a desenhar, tem de dar conta do que fala.
Como amanhecer
que é cheia de estrela no início e termina desavermelhando
clarinha clarinha
E aí se junta com palavra pássaro, canto e... e texta
ensolarando as imagens da cabeça da gente.
(ensolarado também dá conta do que diz)
Texto é a pretensão máxima dos desenhos palavras.
Na verdade, sua própria incompetência.
É um desenho montado com um monte de desenho palavra.
Melhor o desenho mesmo.
Em beleza texto só ganha de palavra mentira, como propedêutico
que só dizem por meio da força:
se chamam conceitos.
São desprovidas de desenhos verbais.
Claro, tem texto que desenha a gente
- como os de Graciliano ou Shakespeare -
por dentro e por fora.
Mas tem uns que rabisca.
(rabisca também dá conta, arranha como o próprio desenho de palavra ruim)
Depois de palavra eu gosto mesmo é de frase
Como a manhã repousada nas costas de uma lata
do menino de Manoel.
Penso que nem tem visão que dê conta
ou desenho.
Não é um jogo
Mas tem dia que a palavra vence.
era o tudo que virava palavra
embora às vezes o nada eu também palavrasse.
Escrevi uma namorada
um irmão
até palavra eu escrevia.
Desenhava de tudo em palavra.
No computador,
na máquina,
no lápis,
todo desenho eu desenhava em palavra.
De alguns eu gostava mais do desenho palavra que do desenho visão.
Não digo que era mais bonito
eu que gostava mais.
Só não permitia que palavra diminuísse os desenhos visões.
Tem alguns tão bonitos que parecem palavras
como entardecer
ou garça - né Manoel.
Palavra, pra se arriscar a desenhar, tem de dar conta do que fala.
Como amanhecer
que é cheia de estrela no início e termina desavermelhando
clarinha clarinha
E aí se junta com palavra pássaro, canto e... e texta
ensolarando as imagens da cabeça da gente.
(ensolarado também dá conta do que diz)
Texto é a pretensão máxima dos desenhos palavras.
Na verdade, sua própria incompetência.
É um desenho montado com um monte de desenho palavra.
Melhor o desenho mesmo.
Em beleza texto só ganha de palavra mentira, como propedêutico
que só dizem por meio da força:
se chamam conceitos.
São desprovidas de desenhos verbais.
Claro, tem texto que desenha a gente
- como os de Graciliano ou Shakespeare -
por dentro e por fora.
Mas tem uns que rabisca.
(rabisca também dá conta, arranha como o próprio desenho de palavra ruim)
Depois de palavra eu gosto mesmo é de frase
Como a manhã repousada nas costas de uma lata
do menino de Manoel.
Penso que nem tem visão que dê conta
ou desenho.
Não é um jogo
Mas tem dia que a palavra vence.
será?
Queria de ter sido poeta - medíocre - era antes do João aflorar.
Hoje pouco me serve a poesia
senão pra só dele falar.
Queria mesmo é pra ele mostrar.
Cantar
Declamar
Minha pensa me diz que ele iria gostar.
- Mas será sua voz me faria tentar?
Não sei seus abraços que tipo ou poeta me fariam tornar.
Talvez nenhum, ou um medíocre.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
borboleta é uma cor que avoa
Numa piscada ainda a pouco atinei
Que pra alguns a vida é de natureza destinal.
Foi um clareamento, tipo uma ciência
bem num segundo de fechado os olhos.
Vi ali que os azuis são a parte menor
dessa vadiagem no tempo.
E que vida de gente tem muito é vermelho.
Claro que roxo, verde, amarelo, por
vezes que também tem
Porém já notei que o que mais vai se ver é
vermelho mesmo.
Quando crescer contarei pro meu
filho dessa alquimia das coisas
Ele por seu turno contará para o meu
neto
Que também tentará, sem sucesso,
Azular os tormentos do neto do meu
filho.
Sem sucesso.
- Tormento é de um verde-escuro
inlavável.
Entendo só hoje por que que é que meu
pai não me revelou dessas coisas:
Era sábio.
O velho sabia da inexorabilidade das
cores.
Há uma liberdade nos coloridos da
vida
A gente é que é preso.
Sorte é não ser apanhado por uma cor só
E ser levado por ela até quando a morte.
Tem marrons que carregam a gente:
São aqueles de um ardor mais amargo.
Isso meu avô que me disse
No final de uma tarde
Todo encardido de cachaça.
Para a própria tristeza
Meu avô era preto
Meu avô era preto
E por isso bebia.
Tive uma irmã que já foi arco íris.
Ao contrário do meu pai
Hoje não sei onde ela tá.
Penso por certo que divinizou-se:
Voou como fosse a própria cor.
revisitações
Gosto de ler em mim minhas poesias envelhecidas. Nelas
encontro a tristeza de ontem e que não raras vezes plangem ainda a criança de
hoje. Das visualizações do meu blog, metade inda vem de mim. Meu público sou
eu. Não é vaidade pois que seja na verdade algo apenas como revisitação. É que
minha vida anda de revés, como um carro que vence a distância do tempo na
marcha da ré. Ou um caranguejo, que mesmo quando pra frente caminha está sempre
que meio de lado, de banda.
O pra frente dele é torto, como o meu. Comungamos de
efeitos de nascença.
Meu menino, quando cresceu, também não perdeu o olho da
nuca. E isso muito é que piorou os efeitos desse azul. Olho que a vida tratou de por óculos, por modo que hoje ele vê o passado
de ainda mais longe, e melhor. Com lentes de ver de longe, mesmo os passados de ontem
empoeiram-se de horizontes, como se houvessem sido distantes de tempo e de
lugares. Coisa que não são. Ultimamente ando muito revisitado. Quando morrer eu
também vou visitar minha mãe mais que meus amigos, e ela se sentirá revisitada.
Gozarei de nobrezas de passado.
conforto de palavras acostumadas
O abandono tem um lugar em
mim. Foi Manoel que me fez perceber isso. É um lugar cheio, preenchido de
saudade, e, como podem ver, lotado de pieguice. Quando escrevo só me saem clichês. Deve ser a
vontade de perenidade.
sustento
Coisa que tem existido muito dentro de mim, além de desmotivação, é palavra. Palavras tem ocupado-me de cabo a rabo. É muita, em quantidade de arroba, e sobram, caem do bico dos dedos e me mostram. Fotografam o abandono sobre o qual caminham minhas imprecisões. Minhas palavras alimentam essas imprecisões. Solidão é uma palavra de que gostam muito minhas imprecisões, sobretudo quando tem angu.
só a poesia é verdadeira
Ultimamente dei pra me dar à poesia. Desconfiei que só nas artesanias de dizer nadas encontraria sustento pras vaziações. E tenho encontrado. Nos abandonos entardecidos das garças de Manoel tenho percebido que ainda há lotes azuis mesmo nas manhãs que não acham pedras para repousar. Descobri que meu silêncio, embora nobre e colossal, nunca é maior que o silêncio das pedras. E que o abandono do lugar às vezes pode ser maior que o abandono das gentes, que podem, no máximo, ser abraçadas por ele. Descobri que até o abandono abraça a gente, e penso talvez copiar o avô de Manoel que casado já foi com a solidão, com quem bolinava na rede. Fiquei sabendo também que as inutilidades da língua servem para descrever - mas sem explicar - a desutilidade de alguns seres, pelo que fui salvo. Achei meu nome nas línguas mortas dos índios guatós do pantanal. Meu nome não tem gorjeios, pois não tenho que ninguém dos hereditários de cima que tiveram da sorte de ser pássaro, mas goza de uma tristeza entardecida, de uma liridade encardida que qualquer dia desses há de sujar com decência algum olhar azul que me ei de chamar de poeta. Só descansarei quando for um nada de marca menor.
Meus muitos inomináveis
Há em mim coisas que não consigo dizer. Coisas que se digo não digo bem. É que são tão pequenas, infinitas, que nasceram pra ficar sem dizer. Não se permitem existências verbais, não gostam de ser nomeadas. Pequenas que são, já notaram que o conceito enfraquece. Não querem adoecer de dicionários. Tampouco em dicionários. Sofrem - e de nada mais aceitariam sofrer - do bem do tudo. Essas tais coisas, infinitas, que habitam-me em sentimentos de vaziação, não aceitam que apequenem sua completude em formas de quatro ou cinco letras. Nem amor lhes serve. Meus sentimentos querem Ser. Não querem que eu use Meu em frase alguma que fale deles. Eles são eles, ora. Formam-se por todos os lados, multiplicam-se, mas não se afronteiram. Nem mesmo de mim. Desconhecem que Ser é uma coisa grande, porém, por logicação, acreditam que coisas são seres grandes. Acho às vezes que mora em mim um outro ser: verbal. Lírico. À bem da verdade acho que são outros seres, que invisíveis e fortes brigam por não ter nomes senão o meu mesmo. Usam disso pra se esconder. Já li em livros que para viver há seres que não gostam de ser, só de existir. E que sofrem, fazendo-nos sofrer.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
de nadas
Esse Manoel tinha mesmo de ser de barros,
De lodos.
Inclinado a garças, se pudesse,
Certamente seria de ventos,
De árvores
De águas.
E foi.
Manoel nadou-se,
Perfeitamente.
De lodos.
Inclinado a garças, se pudesse,
Certamente seria de ventos,
De árvores
De águas.
E foi.
Manoel nadou-se,
Perfeitamente.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
O meu lugar
Quero cantar. É a frase que me vem à cabeça e que eu sem
pestanejar escrevo nas linhas do texto que nem sei onde vai dar. E assim
realizo-a, canto. Canto sob os lugares comuns que deixo fluir enquanto a
referência piegas à coloração avermelhada do fim da tarde pede também passagem
neste desvairado conto. Permito. Lugares comuns são bem vindos. A noite traz seu frio sob o vermelho das árvores, escrevo. Rimarei também fel com
mel, coração com amor, e me tranqüilizarei. Sinto-me como se respirasse o ar mais
limpo dos ares da babilônia - que nem sei de onde tirei, e profundamente. Fecho os olhos, inspiro, respiro. Assento-me nas palavras
acostumadas, e elas me acolhem, como a comparação com o abraço de mãe que insinuou-se na cabeça vazia, agora a pouco, no segundo que passou. Seguro-me, serei forte. Não chegarei
a tanto: a relação entre mãe e proteção é uma verdade, não uma alusão, e não a darei vida neste texto. Mãe é pra quem tem, não é coisa pra devaneios. Decido então
seguir apenas escrevendo, mas sem muita vazão às acostumadas relações batidas, muito usadas, já que por vezes estas nos prendem e não soltam. Que voem, todas as letras, boas ou más. Soltarei agora, para que leias,
obscenidades. Está resolvido. O que achas? Tenho autoridade para tanto, ou devo contentar-me
com diários? Limitar-me à incompetência de medíocres descrições de pensamentos interiores? Tudo bem, não
se preocupe, sei do meu lugar, e, aliás, dele não abro mão. Abraço-me aos meus
costumes e tranqüilizo-me, profundamente, como uma criança no colo da mamãe.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
acho que sim, mas
- Você acha que chove hoje?
- ...daqui vejo um pedacinho de céu azul, não sei quem me engana, se meus olhos ou meu coração, mas o vejo, ali, no cantinho, entre a cortina e a janela, um pedacinho de céu azul.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
o conto do conto
Meus irmãos caminham
pela casa durante a madrugada. É como inicia um dos textos que guardo a sete
chaves no livro do meu recomeço. Livro que ainda não iniciei. No conto
eles estão vivos e felizes, e eu os abraço, um a um. Naquela história ouço
canções, vejo o violão e converso de livros e bois. Meu pai não está ali, foi
trabalhar e só voltará quando eu acordar, saltando para fora da sala.
A noite do conto foi noite fraterna. Sem pai nem mãe conversamos como sempre fazíamos a qualquer
hora do dia e da noite, sem nos preocuparmos com o fim ou se estávamos todos lá ou não. Na história que escrevi vou até o
fim para encontra-los, caminho ao limite dos meus esforços, da minha sanidade, e
encontro, feliz, naquela ilusão, a realidade que de fato me conforta. Estou abraçado
sem precisar toca-los.
Mergulhado naquelas palavras sinto-me novamente. Estou ali. Estou, simplesmente.
Sensação que há muito não experimentava: a de deixar-se ser. E ali eu fui. Naquele
conto eu fui, mais um vez, irmão. Aquelas presenças envolviam-me, enleavam-me,
circunscreviam-me outra vez em algum lugar. Segurança, certeza, gratuidade
para estar. Gratuidade no estar, no viver. O transpassar de pernas, vozes, pessoas,
músicas e ruídos de casa aliviavam-me toda a tristeza dos últimos anos. E eu rejuvenescia.
Sentado ali na sala, com a almofada nas mãos, regozijava internamente a
oportunidade de conviver com seus corpos animados, falantes e vivos. Vozes
infantis, adultas e adolescentes, juntas e reais. Quanta saudade? Há quanto tempo? Prefiro não
contar. Opto por seguir contando o conto do recomeço cujo cenário é o fim da vida
de todos nós. Afinal, a minha também já acabou.
Conto passado numa sala apenas minha, desconhecida
por pelo menos três deles, mas que naquelas linhas faziam do recente cenário abrigo à vida de todos. Aquela sala servia à vida. Daquele espaço fiz um lugar
atemporal, sincrônico. Ao contrário da crueldade da vida, naquele conto enterrávamos
o tempo, a diacronia, e convivíamos todos num mesmo lugar. Zombávamos da lógica,
do destino, do tempo e da morte. A nova sala era o nosso lugar. Sentados no novo sofá, poderíamos
conversar se quiséssemos. Se quiséssemos, poderíamos tudo. Mas bastava-nos a
presença, o abraço da convivência, a segurança encontrada nas coisas pequenas e
corriqueiras, como a que encontra o bebê ao ser tocado no ouvido pela voz materna. Cultivávamos o gosto pelo nada, pela presença sem toque, o prazer de estarmos juntos.
No meu conto eu não
chorava mais, apenas sorria encantado sob a luz encantadora da voz do violão do
João. Aquele menino lindo, fácil, e que era eu mesmo. Iluminavam-me os cabelos
lindos e esvoaçantes de Gabi, sempre engraçada, faceira, esperta. A Ana andava,
de lá pra cá, da cozinha à sala, falava com a gente e tecia planos enquanto fervia
uns legumes, ainda com roupa de caminhada. Meu pai não estava. Àquela hora ainda trabalhava, por nós e pela família, como sempre fez. Embebido de luz, de
amor, eu me amava novamente. Sentia felicidade em viver. Orgulhava-me fazer parte
daquele time, daquela família.
Mas meu conto era só um conto, era estória,
ficção. Escrevi aquelas linhas sabedor de que final feliz era desfecho impossível
naquela ocasião. E ainda assim escrevi. Escrevia, escrevia e escrevia,
compulsivamente. Queria que aquele momento jamais acabasse, que minha história com
eles não findasse outra vez. Queria que finasse, essa sim, a minha
tristeza. Outra derrota, nova frustração. Sobravam linhas, canetas,
computadores, folhas brancas, mas faltavam-me ideias para manter vivo o conto do recomeço. Era preciso contornar os irremediáveis pontos finais que abundavam naquelas vidas breves e cheias de aspas. Era preciso retira-las, e faze-los viver.
Pudesse - e tivesse competência pra isso - enxertaria o
conto eternamente, e por ali ficaria dias e horas e mais dias. Tomando café e
escrevendo, revirando e revivendo os meninos, meu pai, a Ana. Faria Gabi
aprender violão, nota a nota, devagar, conforme o tempo exato exigido pelo
processo e relataria todos os detalhes do dia em que executou sua primeira
canção; falaria de seu amor pelos Engenheiros do Havaí, das dificuldades, e do
momento em que resolvera desistir, como faria mais tarde, para dedicar-se à literatura. Ao João eu imputaria qualidades que nunca teve, defeitos que nunca
manifestou e dedicaria algumas páginas do interminável conto às análises acerca
da perfeição daquela criatura à luz de algum filósofo de produção longa e
complicada. Apenas para ficar mais difícil, mais longa, a história e a vida dele. Eu queria dificuldades, e tudo o que contribuísse à extensão do meu tempo a frente da máquina de escrever vidas serviria. Nessa passagem, tornar-me-iam doutor no pensador em questão,
João e eu ficaríamos ainda mais próximos no estudo de sua própria mente e o
conto se alongaria em pelo menos umas novecentas páginas, e isto apenas no capítulo “do
menino”, como nas vidas secas do Graciliano, então indicado por Gabi.
À
Ana eu tributaria um longo e complicado processo de crise existencial que
culminaria em sua construção como uma artista plástica crítica, contestadora,
feminista e orgulhosa. Sim, eu mudaria completamente o caminho que se lhe
apresentava em vida, apenas para prolonga-lo, para prolonga-la - sua vida. Para estender nas minhas mãos a sua vida, eu lhe imputaria minúcias de difícil descrição. Detalhes que exigiriam de mim aptidão literária que não possuo. Mudanças bruscas muitas vezes são lentas,
como seriam estas que a ela eu impingiria. E a descreveria, devagar, como Saramago, levando à palavra cada passo daquela morena bonita.
Em
alguns momentos embaralharia as histórias. Talvez falasse do João no capítulo
de Gabi, que nos indicaria excelentes autores russos, romenos, africanos e
norte americanos. Estes últimos, por sinal, seriam sempre duramente criticados
pela Ana. Crítica, brava, ela bradaria contra o império, que naquele momento já
estaria em declínio completo. Àquela altura já estaríamos para além de 2050, ainda
juntos, jovens, na mesma sala do sofá novo, onde tudo se passaria sem que um
segundo destes 50 anos me escapassem à vista ou à letra. E o conto se
alongaria, cheio de pleonasmos, repetições, reviravoltas e enrolações. Eterno. Se
alongaria longamente enquanto eu ainda estivesse ali, estático, mudo, escrevendo-o
das funduras do meu espírito para que nunca terminasse aquele momento. Assim eu mantinha-os vivos, ao meu lado.
Ali
na sala, do fundo da minha cabeça fervilhante, eu os casaria e separaria; os adoentaria para depois curá-los; inventaria brigas, apenas para que depois nos abraçássemos; teria sobrinhos e faria filhos tão somente para que tivessem tios; enfim, viveria tudo o que os malditos acasos retiraram do meu futuro sem pesar. Nas minhas letras eu provocaria o mundo. E me vingaria
do destino, da morte, da solidão obrigatória de único irmão a que fui condenado.
Já sem ideias, ao final do conto, enorme, inchado, que já não caberia em biblioteca alguma desse
mundo, eu praguejaria ao acaso a raiva pelos açoites de que reclamavam minhas costas e meu coração.
Sem
forças, desolado, quase absorvido na realidade da qual lutava por escapar, rezaria
a Deus por mais ideias e não seria atendido, como de costume. E assim, como a
própria vida, como cada um deles, como a meu pai que ainda trabalhava naquele
momento, o conto se esvairia pelos meus dedos, como água. Sem ponto final, sem
refrão, sem abraços e sem direção, aquelas memórias absurdas, inventadas, sobre um
futuro que nunca foi, seriam finalizadas. Sem surpresas, sem final feliz. O
nosso encontro no final da vida seria então o recomeço, o início do livro que
nunca escrevi, que ainda não sei como escrever, que não sei como escreverei e
nem mesmo se o quero escrever: o livro da minha nova vida - sem eles. O livro da vida fora do conto que só terminei por incompetência literária. Fosse eu bom e criativo, viveria por lá, no conto, até hoje, ao lado deles, sentado no sofá novo, com a máquina sob o colo, acomodada na almofada, escrevendo-os, devagar, revivendo-os, revivendo-os, revivendo-os...
domingo, 11 de agosto de 2013
Palavras-insônia-sonhos
A mim, pouco coube. Não mais que copiar do blog de uma outra insone como eu esse início de oração. Achei bacana, a mim era expressão que nunca usei, nem pouco. Invejei e agora a repito nas primeiras linhas destas minhas memórias que só serão lidas com afeto significativo caso a insônia de amanhã tenha seu alimento retirado pelo ocaso, pelo acaso, ou por mim mesmo. Não li todo seu texto, pois a mim pouco cabia. Eu estava cheio, não havia espaço para caber mais nada. Não, eu não disse completo, mas cheio. Talvez enfarado defina melhor este sentimento que a mim cabia naquela noite insone. Outra palavra bacana, acho que a moça não a usa. Eu sim. Envaideço-me. Entristeço-me. Entristeço-me por perder noites à saudade, aos pensamentos. Entrego minha saúde ao que faz do homem o Homem. Penso, reflito, discuto, argumento e venço. Penso. A cabeça trabalha na noite, de noite, é vigia da sensatez e cuida para que não fuja. Envaideço-me, tranquilizo-me. Os que admiro trabalharam a noite. Certamente a noite. Protegeram-se ao abrigo de velas. Velaram-se. Velório. Entristeço-me: praguejo ao maldito jogo da linguagem, das associações que me lançam o perfume dos cafés das noites incomuns: das que não saímos incólumes. Afeto-me. Recordo uma frase não escrita, uma reflexão não desenvolvida nas passagens acima e retraio-me ante o desenvolvimento do afetar, certo de que primeiramente devo acertar as contas com as linhas passadas quando sou atingido - em cheio - por desenxabida. Orgulho-me dela, desenxabida. Acertou em cheio o pensamento vadio. Orgulho-me também de insone e de incólume. Como os que admiro, estou usando palavras difíceis. Haverão de usar dicionários por mim. Me lembrei, insone. Insone foi a ideia não desenvolvida. Não segui. Parei no insone, viajei por memórias estranhas, entristeci-me, e assim fiquei, insone. A mim, coube algo que ainda não domino, que não vejo, não identifico. Caiba-me, talvez, desenvolver - insone - um sonho. Pequeno que seja, mas que sirva ao menos de suporte ao sono, dele mesmo então arrancado, no furto do agá. Ah, o sono. Há o sono. Há o sonho em há o sono, basta jogar, brincar com os agás enquanto a noite devora luzes amarelas, ruas vazias e sonhos. Seja a sonar ou a sonhar, compreendo: a mim, cabe jogar. Sim, a mim, cabe sonar. A mim cabe, mas pouco.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
viver é patético
Pateticamente, ela viu-me chorando pateticamente. Passou todo o domingo com essa ideia na cabeça, atormentado, aturdido. Pateticamente. A festa da noite anterior o assombrava como os fantasmas das perdas recentes que o fizeram, durante a festa, chorar pateticamente. Na frente dela e de todos, pateticamente. Na frente de todos os seus amigos, pateticamente. A própria palavra o perseguia, e ele, patético, fugia do que não podia se libertar, pateticamente. Aquela atitude o perseguia onde quer fosse, em que quer que pensasse. Não era uma atitude, era um meio de vida, uma forma de encarar e observar a vida. Mais que um adjetivo, era ele mesmo, sua personalidade, uma marca de nascença aprendida nos desastres da vida jovem e desastrada, patética. Poderia ser atlético, mas não era, a palavra de sua vida era patético. Era adjetivo, mas não qualidade, era defeito. Defeito, nada mais que uma qualidade não reconhecida socialmente. Claro, os leves, já que os graves não merecem mesmo o menor reconhecimento. E ele era pouco reconhecido, o seu advinha dos motivos que todos compartilhavam. Educado, inteligente, respeitoso, atento, isso qualquer um deve ser, não merecem elogios os que dessas virtudes sofrem. E eram estes os seus elogios, ele era um comum, mais um. Medíocre, pateticamente medíocre. Quando morresse, sim, outros elogios se apresentariam, outras qualidades se apressariam em permear as frases que saltariam engasgadas das bocas dos amigos. Ali faria-se bonito, inteligente, escritor, melhor irmão, primo, amigo, namorado e ótimo filho. Sim, todos elencariam qualidades que criariam a falsa impressão de que ele nunca seria esquecido. Tolos, repetem a mesma mentira uma vez já ouvida por todos os mortos da história da humanidade e nunca cansam de se enganar. Os mortos também não. Lugares comuns, mentiras, ilusões, um dos grandes segredos da tranquilidade social e pessoal. É preciso acreditar para viver, em qualquer coisa, mesmo que na ilusão da eternidade. Mas naquele momento ele tornaria-se único, retirariam-no da mediocridade, elevariam-no. Ninguém se lembraria de um só evento comprovador do antigo e patético modo de vida. E naquele dia, da mesma forma que ele fazia na noite anterior, todos chorariam seus mortos, como ele, pateticamente.
aquele menino e a vida
Em que será que pensava aquele
menino? Em que pensaria aquele menino? Em que fracassaria aquele menino? Dentre
as várias definições da vida, identifico-me geralmente com as mais pessimistas
– realistas, corrigiriam alguns –, com aquelas que a definem como o encadeamento
de fracassos e frustrações. Nesta perspectiva a vida é o exercício das
expectativas, das esperanças, é a capacidade de esperar aquilo que não sera realizado. Viver é sonhar. O encadeamento de
amanhãs depende da disposição para esperar. Vive quem espera. Enquanto há
esperança, há vida, e não o contrário, como lembra o nosso Mário Quintana. O
que esperava da vida aquele menino? Daquele menino, o que esperava a vida? Não,
não pode ser, não é assim, pois é o menino que espera da vida, é ele que
escolhe ou não permanecer ou partir dela, dessa maldita corrente de expectativas
frustradas, de dia-a-dias de nãos. Ah, aquele menino, sonhador, menino. Menino tímido, tranquilo,inseguro, menino. Ah, aquele menino. Felizes são os meninos, pois da vida cuidam apenas de viver. E vivem.
sábado, 3 de agosto de 2013
ele e ela, uma imagem
Os dois? Ah, ela ouvia a música e ele a canção.
Pensando sem precisar pensar, ele sentia a tranquilidade de estar ali, imerso
num silêncio a dois que não incomoda, naquele chamado de cumplicidade.
Praticavam o mesmo crime, deixarem-se estar, apenas, um com o outro.
Felicidade? Não, essas palavras fortes, pesadas, definidoras, não atravessavam
suas cabeças. Como eu já disse, eles apenas estavam. Não definiam, definiam-se.
Era exatamente das caixas que fugiam. Não, não tema leitor esporádico e
pensativo. Como eles, tranquilize-se, eu não vou usar metáforas de liberdades
ou dizer abertamente que eram livres, sobretudo por que não eram. Paremos com
filosofias que inventam palavras que não definem sensações ou coisa alguma da
vida vivida. Conceitos, isto, este é o termo. Paremos com conceitos,
desconceitualize, deixe os dois, deixem estar. Se queres sentir o que sentem
aqueles dois, sinta, faça, viva. Arre, os lugares comuns. Desculpe-me, não
voltará a acontecer. Minha maldita inclinação para manifestos, para sugerir aos
outros que façam aquilo que nunca fiz, não faço e não penso em fazer. Arre, outro...
o passado, presente e o futuro dos verbos, assim, em sequência, encadeados numa mesma frase. Malditos clichês, espero um dia
deixar de usa-los. Mas nos faremos compreendidos sem os usos e desusos dos
lugares comuns? Sinto inveja dos dois e de vocês, que não terão de ter com a
vergonha de suportar a autoria dessas baboseiras...
e prosseguir.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Insônia
Insônia. São 4h30 da manhã. Estou desperto. Despertei
naturalmente. Talvez não seja insônia, ontem dormi cedo, por volta das 22h,
22h30. Tenho me deitado geralmente após a meia noite, por vezes às 2h da manhã,
e despertado naturalmente às 8h. Calculo. Não, não foi insônia, não é insônia,
meu corpo está satisfeito. Saciado de sono. Está programado para dormir algo
entre 6 e 8 horas por noite. Programado para acordar cedo, como na infância.
Acordado, a saudade me assalta. Pergunto quando é que isso não me
acontece, temo nunca mais conhecer a tranquilidade de apenas acordar.
Lembro-me, sonhei com o João nesta noite. Ele estava no sonho com os
traficantes e o mosquito na minha boca. Uma mosca na boca. Uma mosca nos lábios
da Ana. Arrependo-me de escrever esta frase. Não pela frase, não pelas
palavras, não por seu efeito. Escrevê-la já é o efeito, o efeito dessa horrível
lembrança, que penso não devia povoar os pensamentos de nenhum irmão. Nem dos
maus, nem dos bons, como eu. Sim, eu fui um bom irmão. Também não gosto de
escrever “fui”, “era” ou “tinha”. Estes verbos no passado me entristecem,
danificam meu presente. Medem como trena cada metro do vazio desse apartamento
vazio e silencioso às 4h40 da madrugada. 4h40 da madrugada. Era o horário do
ônibus no período do trabalho no interior. Nessa época a casa ainda respirava
na madrugada, era viva, eu também. Passos, copo na pia, água caindo no copo, na
latrina, descarga, passos, cama rangendo, respiração profunda, sono, silêncio
novamente. Mas um silêncio vivo, não absoluto. Não era uma casa silenciosa, era
silenciada. Absoluto. Absoluto tem tudo a ver com luto. Luto para viver, luto.
Não é à toa que é luto o termo, a expressão. É a sua relação com o imutável,
com a ideia de algo eterno, pesado. Pesado como trilhão, que sai da boca e cai
no chão, próximo dos pés. Exige um pulo pra trás para proteção dos dedos. Luto
também é um pulo pra trás. É viver um presente sempre pretérito. Para frente,
só o tempo caminha, somente o relógio que já marca 5h30 enquanto eu escrevo
dos sentimentos de 4h30, das lembranças do novembro passado, sobre o 2011 desgraçado,
de um 2010 complicado e de um presente sem forças, resignado praticamente. A manhã avança, mas só a manhã. Amanhã, de verdade,
só amanhã. Amanhã, quem sabe?
quarta-feira, 24 de julho de 2013
o dia insiste em nascer
Pois é, vão-se as pessoas, fica a saudade, o olhar. Vago, distante, de noite e de dia, quando fica um pouco menos. Não menos triste, mas menos sabedor do que só a noite revela nas luzes amareladas dos postes que iluminaram o choro daquela madrugada, mais uma, fria, tão fria quanto as outras três e as próximas muitas que ainda virão com seus cafés quentes, piadas e tias distantes. Pois é, sem mais, já que palavras são poucas, e não quero insistir em fazer-lhes compreender isto que os dias me explicam sem nada precisar fazer além de nascer.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Tigun is Dead
Morreu,
nesta segunda-feira, Tigun, o mais desimportante palhaço do Brasil. Dono de um
sorriso vacilante, o triste palhaço retirou da face o nariz vermelho exatamente
às seis horas deste 6º dia de junho. Procurada por nossa produção, a assessoria
de imprensa do agora ex-palhaço não quis se pronunciar, limitando-se apenas a
dizer que nos próximos dias será convocada uma entrevista coletiva na qual não se falará dos motivos da morte. À
pedido do falecido, a entrevista será um momento para agradecimentos.
Segundo
apuramos logo após o anúncio que foi publicado no site oficial na manhã dessa
terça-feira, a alegação é de que os motivos já são de conhecimento público, dessa
forma, não serão nem mesmo citados durante a entrevista. Durante a última
aparição em público, ainda devidamente trajado, o palhaço já dava mostras de
seu cansaço, mas negou os boatos de que morreria nos próximos
dias. – Estou bem! Foram suas últimas palavras.
Clownistas
de todo mundo já se pronunciaram sobre o anúncio da morte oficial do palhaço, e
de forma geral todos foram enfáticos ao afirmar que sua falta não será sentida.
Na esteira dessas opiniões, diversos grupos circenses apressaram-se em emitir
notas endossando a opinião dos especialistas. Para a maioria dos profissionais a
morte de Tigun apenas demonstra a necessidade da regulamentação da profissão, impedindo
que amadores se arrisquem a conciliar as tristezas pessoais com a obrigação de
fazer a felicidade dos outros. "A proposta
de lei está lá no congresso, engavetada. É desumano. Quantos inocentes
precisaram morrer para que os palhaços sejam olhados com mais seriedade?" A declaração inflamada é do presidente do sindicato
dos palhaços de Minas Gerais, Carlitos, que soube da notícia enquanto se reunia
com os saltimbancos, de quem busca apoio para pressionar o governo através de uma regularização conjunta.
Um dos
poucos a lamentar a morte do palhaço foi Bert Willians, a grande estrela do
espetáculo In Dahomey, encenado pelo
grupo Willians e Walker. Cinco minutos após o anúncio, Bert publicou em seu
Twitter uma foto tirada no último carnaval em que os dois estão abraçados, e
Tigun aparece sorrindo. Na legenda, o mestre do humor norte americano faz
referência a uma das marcas registradas do parceiro brasileiro, seu sorriso
falso: “Para viver era preciso reaprender a sorrir de verdade, e ele não estava conseguindo”.
Benjamim,
defensor histórico do humor realizado por pessoas tristes, num primeiro momento
optou por um tom menos sentimental ao comentar a morte. Crítico, o palhaço – negro tal como Tigun – seguiu a mesma linha dos sindicalistas e aproveitou o
exemplo para alertar sobre a grande dificuldade de quem opta pela vida de Clown, sustentar
a ambiguidade das emoções. Na visão de Benjamim, “a relação paradoxal entre a
vida particular e a vida social (um conflito entre tragédias e melancolias em face da necessidade de se fazer a felicidade alheia) é o motor mas é também a própria desgraça de muitos palhaços. É um trabalho complicado, é preciso preparação. Uma atividade como essa não pode ficar nas mãos de qualquer um.”
Adiante,
mais lamentoso, Benjamim destacou Tigun como um lutador: “Razoável como
palhaço, Tigun deve ser lembrado como um lutador. Por mais falso que seu
sorriso tenha se tornado nos últimos anos, por mais medíocres que suas piadas
tenham ficado, o importante é que ele nunca deixou de fazê-las. Na vida pública,
mesmo estando meio desanimado, até bem pouco tempo era possível rir com ele."
O dia
e o horário do sepultamento ainda não foram confirmados, mas um amigo da família revelou que o mais provável é que aconteça amanhã, quarta-feira, no atelier da saudade, onde a família tem jazigo. Suspeita-se que não será permitida a presença de público. Segundo a mesma
fonte, o dono do corpo - um rapaz de 27 anos que se encontra extremamente
abalado com a decisão do palhaço em falecer - já decidiu que tudo ocorrerá numa
cerimônia simples, obedecendo, sobretudo, ao desejo do nariz vermelho, que havia
manifestado através de uma carta escrita em 2010 as orientações para seu funeral. Abaixo, o trecho final da carta assinada pelo tradicional nariz vermelho usado por Tigun desde a infância.
[...] derreta-me em fogo baixo, misture-me com o resto de maquiagem e pegue os pincéis. Faça com isso uma poção, uma tinta. Desenhe-me. Quando partir, quero virar uma camisa. É uma forma de continuar acalorando o coração de alguém. =)
[...] derreta-me em fogo baixo, misture-me com o resto de maquiagem e pegue os pincéis. Faça com isso uma poção, uma tinta. Desenhe-me. Quando partir, quero virar uma camisa. É uma forma de continuar acalorando o coração de alguém. =)
ruído de vida
- É isso. Imaginei
que fosse importante te contar. Se vamos ter uma ter relação pessoal, como você
propôs, achei fundamental que soubesse. Não é uma história boa de contar,
imagino que também não seja de ouvir, mas é a que eu tenho, é ela que trago
escondido seja no fundo dos olhos ou no sorriso frouxo.
- Entendi. E você?
Desculpe, sei que é uma pergunta idiota mas... como é que você tá?
- Sinceramente,
mal, muito mal. Eu era o mais velho né, de quatro irmãos. Desde pequeno meus
planos sempre levaram os outros em conta, e quando a gente vai ficando adulto
isso é ainda mais evidente, mais obrigatório, inconsciente. Ainda que em menor
grau, o mais velho é tipo pai, mãe, essas coisas, é um olho aqui e outro lá.
Tudo o que a gente faz, faz também pensando em deixar, né. Tem de ficar um
legado. Agora vou ter de tocar as coisas por mim mesmo. Aliás, antes já seria
por mim, eu mesmo é que teria de fazer, conseguir, eu que te teria de chegar, né. Mas a minha ideia era
chegar pra dividir. Não essa de ser tudo pra mim. Se eu conseguisse status,
dinheiro, poder, seria também pra dividir com eles, para ter uma vida melhor.
Não era só pra mim. Foi assim que eu cresci, né, dividindo, do iogurte ao pão,
do quarto ao dinheiro da passagem, tudo era dividido, tudo era pra todos. Hoje perdi
essas referências, esses outros estímulos, esses outros lugares onde encontrava
apoio e motivação para agir, conquistar, mas tô levando. É bem difícil mas tô
levando. Como te falei eu cresci sempre dividindo, tudo isso hoje é muito novo
pra mim. Um dias desses eu tava pensando que essa coisa de dividir era parte da
minha identidade. Fui filho único muito pouco tempo na minha vida, nem dois
anos, só antes e depois da Ana. É estranho, não tá fácil não. Sem banda, sem
bonde, a vida fica sem ritmo. Ando me sentido um boneco de cordas, ou melhor,
um violão, mas com quatro cordas arrebentadas. Quem toca sabe, música mesmo não
sai não, ouve-se mais é barulho mesmo.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Era uma casa muito engraçada...
Já não conseguia mais
ficar sozinho, cada encontro consigo era ficar no vazio, num quarto vazio. Seu
quarto não tinha paredes. Sem abrigo da chuva, do vento e dos furacões, aquilo
não era mais um lugar. Já foi. Sozinho em seu quarto sentia frio, fome, sede de
segurança, de referência e de proteção.
Suas paredes foram
derrubadas, uma a uma, rapidamente. As últimas duas antes de estarem
terminadas. Ainda faltava reboco, pintura, personalidade. Caíram antes, assim
mesmo, inacabadas. Após perdas duras e consecutivas suas referências também
caíram, viraram escombros, confundiram-se no chão. Nos passos escuros da
madrugada ele caminha sobre restos de símbolos, sentidos de cores variadas e
pontas finas, cortantes. Calça os chinelos, pisa com cuidado, devagar,
procurando o chão. Estende as mãos, tateia, mas não acha as paredes. Está
solto, desamparado. É um errante na própria casa.
Hoje ele não vai ao
encontro do outro, vai ao abrigo. Seus outros não são pessoas, são lugares onde
se abriga do vento molhado e do sol que queima seus olhos escurecidos. Hoje ele
é má companhia, um parasita. Pouco oferece, não tem mais que a presença.
Consome suas relações, desgasta-as, devora laços duramente construídos somente
por medo de ser devorado por si mesmo dentro da própria casa. A rede fica no
chão, não serve pra descansar. Rede precisa de paredes, balizas. No chão não é
mais do que cobertor.
O ofício das construções
ele aprendeu cedo, e logo percebeu: reformar é mais difícil que construir. Sua
experiência pouco ajuda. Talvez até dificulte. Afinal, reconstruir cansa, leva
tempo, e as últimas duas casas não duraram seis meses cada uma. Por vezes ele
se pergunta se essa é uma nova ou velha reforma. Errante no tempo. Não está
fácil. Num dia é um tijolo que cai, noutro é o pedreiro que falta,
entretanto, quase sempre, a escassez é de material mesmo. A obra pára.
Sem ter para onde ir, ele
mora por ali. Vai tomando chuva até que o barraco se erga novamente. Quando
convidado, dia ou outro, ele dorme na casa do vizinho, abrigado e feliz. Mas
via de regra acorda molhado. O sereno das noites frias é cortante, e o início
da manhã é sempre gelado.
Um dia, com paredes
novas, voltará a receber os amigos em sua casa, tal como sempre fez. Será
também fonte de abrigo. Por enquanto não dá, não pode. Sente vergonha da
própria casa. A cidade cresce rápido ao seu redor, numa velocidade que ele não
consegue acompanhar. Sua casa, mal-acabada, enfeia a rua da amizade, empobrece
a rua do amor. Porém, modestamente, ele segue sua reconstrução. Vive num
canteiro de obras, num lote meio vago, uma casa meio vazia. Falta material,
sentido e significado não se encontra em qualquer depósito. Vontade
sempre tem, mas é pouco. Significado é importante, mas é difícil encontrar.
Resolveu produzir sozinho. Produção caseira, clandestina, no fundo do lote. Como
não tem cheiro nem faz barulho, tem gente que nem percebe, mas há uma casa
sendo refeita no 650.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Respostas
- Cadê a Ana?
- Cadê a Ana?
Assustei-me, mas mantive o sorriso. Eu estava cercado. Com cadernos e canetas nas mãos aquele
bando de crianças sedentas por desenhos de carros, flores e palhaços interpelavam-me
insistentemente. A situação era comum, não era novidade, acontecia sempre que eu passava por ali. E eu me divertia com eles, mas não naquele dia, sobretudo enquanto
ele, somente ele, o menorzinho, mais afastado, insistia na questão.
- Cadê a Ana?
Voz anasalada, nariz sujo e um olhar profundo incomum para as
pessoas daquela idade, o inquisidor mirim era implacável.
- Cadê a Ana?
- Agora não, depois eu faço o desenho pra vocês. Depois eu
faço.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.
Com os dentes armados, amarelados, mantive no rosto um sorriso
forçado, disfarçante e incompetente. Afeitei,
dissimulei mau, fui denunciado na umidade dos olhos. Já não é preciso ser
adulto para reconhecer minhas mentiras. No canto da boca havia também a tremura, insistente, tal qual o maldito questionador. Sem resposta, eu me sentia acuado, precisava ser
acudido.
Por sorte eu fui notado. Mais humano ou simplesmente mais versado nas coisas
do trato social, o mais velho do bando viu em mim algo além de um desenhador de
aviões e tratou logo de dar um jeito no inconvenientezinho, seu irmão, que não desistia de saber cadê.
Cuidadoso, aproximando o rosto do ouvido do pequeno, ele tratou de fazer com as mãos um túnel de segredos em volta da boca, e assim, baseado
na ideia que tinha de sussurro, falou alto aos meus ouvidos a verdade que meu coração fingia não escutar a alguns meses. Mesmo sem compreender exatamente a resposta o pequeno acalmou-se. Naquele instante, nos olhos profundos que não deixavam de
pesar sobre os meus, eu percebi o significado daquela resposta. Definitiva, ela era incontestável
até para uma criança.
O malvado, que não contava com um vocabulário muito além do necessário
para a realização das pequenas maldades cotidianas, nem se dignou a responder. Satisfeito,
com naturalidade, pegou pelo chão um carrinho e saiu a correr pela sala em direção
ao quintal, dando ainda alguns chutes numa bola que atravessava seu caminho. Sereno e vivaz, ele sorria. Seguiu sem dizer uma palavra. Seu recado foi prático,
direto. Eu é que não me dei por vencido. Achei pouco, pretensiosa demais aquela sua tranquilidade diante de explicação tão dolorosamente insofismável. Obstinado, mas sem exitar, saí no encalço do moleque a perguntar, cadê?
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Cheio de si
Desaprendi a ficar sozinho. Exatamente agora, quando não há
outra opção, eu desaprendi. Óbvio, eu já soube, e por isso desaprendi. Se antes
eu sabia é exatamente por que era uma opção, aliás, uma opção de difícil
realização. Eu tinha de saber, só sabendo eu poderia ficar sozinho. Saber os
lugares, criar situações, aproveitar as oportunidades.
Havia sempre muita gente, o junto era sempre preenchido de
sempre. O junto era todo o tempo, e por isso é que o só era tão bom. Era algo
diferente, era o meu encontro comigo. Momentos raros, passageiros e quase
sempre prazerosos. Uma viagem de ônibus, a ida ao trabalho de fone no ouvido, a
opção pelo caminho mais longo na hora da volta
só para prolongar a sensação de estar si, de estar só, já que em casa,
eu sabia, era só junto, sempre.
Havia sempre alguém, vozes, passos, intromissões. Saco! Quem
é que podia ser si quando não se consegue ficar só? Era difícil. Talvez por
isso eu não me conhecesse muito, eu quase nunca estava comigo, era sempre
obrigado a estar com alguém. Meu estar era sempre junto, eu tinha pouco Ser.
Hoje, nunca e sempre trocaram de lugar. O nunca tá sempre
junto enquanto o sempre tá sempre sozinho. Tive de desaprender a dividir,
fazer-me de cara valente, enfrentar a mim mesmo e viver se sendo o tempo todo.
Não há para onde correr, não há para onde fugir de si. Estou em todos os
lugares, encontro-me a cada esquina, fico sempre comigo. Saco!
Não é fácil, eu não sabia que eu era tão chato,
sinceramente. Meu eu junto era muito melhor. Menos rabugento, menos
melancólico, menos libriano, menos paradoxal. Menos dividido, fiquei mais preso
no eu. Antes era melhor.
Com saudades, lembro-me do eu mais dividido e menos
dilacerado. Não era partido, era dividido, partilhado, compartilhado, conjunto,
conjente. Eu era apenas uma pequena parte de mim mesmo, não tinha de dar conta
de tudo. A passos lentos, eu carregava apenas uma das alças do meu futuro. Era
divido, não indivíduo.
No tempo de hoje há quarto com porta, noites de privacidade
e manhãs de silêncio. Ótimas pra estudar, elas são péssimas para ser. - Juro,
imaginei que fosse muito mais legal não ter de dividir a bandeja de iogurte.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Sem ela, o bloco doeu sozinho
Eu e ela? Não. Com o nosso bloco foi diferente, quanto mais ele se esvaziava mais a gente se avizinhava, mais a gente se aproximava. Nas ruas do nosso carnaval, quanto mais espaços, mais juntos e menos separados. Quanto mais sozinhos, mais bloco a gente foi, mais bloco a gente ficava, mais bloco a gente era. Sim, nós crescemos assim, tivemos que crescer assim, foi único o jeito, ir se fortalecendo, se solidificando, ir se cimentando. Virando bloco, massa mesmo, conjunto. No fim, um conjunto de dois.
Nosso bloco era a esperança um do outro, a esperança de que nunca seríamos Eus sozinhos. Era pacto. Impacto combinado no silêncio desesperado de abraços de choro forte e doído, onde o peito de um empurrava o do outro, alternando a respiração. Era assim que a gente ia, ora um, ora outro. Nem precisava falar, o próprio corpo combinava, se encaixava. Ela explodia, eu segurava, eu me implodia, ela me abraçava, forte, reunindo os pedaços. O inchaço do coração de um desaguava no peito do outro, sempre, aspirando e expirando, inspirando e respirando, até se acalmar, se acalmarmos.
E assim fomos um, dois, três carnavais. Pulando juntos, alternadamente, de mãos dadas. Eu era 12, ela era 8, eu corria, ela caminhava, ela partiu e eu fiquei. Sem aviso prévio, ela partiu nosso pacto e acabou nosso carnaval em plena segunda-feira. Com mais uma baixa eu não tive outro jeito, não tive outra opção, guardei a camisa e fechei nosso bloco. Sem ilusões, sem fantasias, desatinei, descarnavalizei. Hoje, de janeiro a janeiro, só realidade, verdades duras, desalento. Sem o nariz de palhaço, a própria vida é quem ficou de cinzas. Sozinho, o bloco doeu.
...e nos corações saudades e cinzas foi o que restou. Toquinho e Vinícius.
Nosso bloco era a esperança um do outro, a esperança de que nunca seríamos Eus sozinhos. Era pacto. Impacto combinado no silêncio desesperado de abraços de choro forte e doído, onde o peito de um empurrava o do outro, alternando a respiração. Era assim que a gente ia, ora um, ora outro. Nem precisava falar, o próprio corpo combinava, se encaixava. Ela explodia, eu segurava, eu me implodia, ela me abraçava, forte, reunindo os pedaços. O inchaço do coração de um desaguava no peito do outro, sempre, aspirando e expirando, inspirando e respirando, até se acalmar, se acalmarmos.
E assim fomos um, dois, três carnavais. Pulando juntos, alternadamente, de mãos dadas. Eu era 12, ela era 8, eu corria, ela caminhava, ela partiu e eu fiquei. Sem aviso prévio, ela partiu nosso pacto e acabou nosso carnaval em plena segunda-feira. Com mais uma baixa eu não tive outro jeito, não tive outra opção, guardei a camisa e fechei nosso bloco. Sem ilusões, sem fantasias, desatinei, descarnavalizei. Hoje, de janeiro a janeiro, só realidade, verdades duras, desalento. Sem o nariz de palhaço, a própria vida é quem ficou de cinzas. Sozinho, o bloco doeu.
...e nos corações saudades e cinzas foi o que restou. Toquinho e Vinícius.
sábado, 11 de maio de 2013
sábado de sol
Cecília, hoje tá tenso. Dormi bem mas acordei triste em pleno sábado de sol. Estou a incoerência em pessoa, sentindo-me a vergonha do mundo. Sonhei com Luisa pela primeira vez, mas assim como o João ela não falou comigo. Eu e Henrique fomos buscar cerveja mas quando, no balcão, ele pediu ao dono do bar três garrafas de Brahma foi ela quem falou, e não ele. Foi bom ouvir sua voz, mas só no sonho, pois acordei triste.
Cecília, é normal sentir vergonha de Ser? É que eu sinto vergonha de ser quem eu sou, sabe? As vezes até penso que é raiva mas é vergonha mesmo. Vergonha de ter a história que eu tenho. É que tem dias que eu não quero sair, sábados que não quero me divertir, mas sinto vergonha de admitir o por quê. De contar às pessoas. Sinto que essa choradeira fragiliza as relações da gente, né. Aí eu coloco minha máscara, mas ela tem caído ultimamente... não tá dando pra segurar, meus elásticos andam bem frouxos. É que eu ainda uso os mesmos elásticos da época do João, já que a Luisa nem avisou que era pra comprar mais, tenho me virado, tem dias que seguro com a mão mesmo. O problema é que na época eu já tava fingindo bem, e aí não tive como voltar atrás e ficar triste tudo de novo, e só me restou caminhar como se toda segunda fosse um dia normal. Mas não tá sendo, e você sabe. Tenho vergonha de não seguir, de não ir, de estar meio parado, embora eu ache que esteja andando, e bem. Ah, esses meus olhos... eles me enganam tanto, sabe? Eu nunca sei em que velocidade estou. Não sei se a roda viva é que é muito rápida ou a minha muito lenta. Eu tinha certeza que andava pra frente, evoluindo, como dizem fora da Antropologia. Hoje não sei nem se estou andando.
Então Cecília, estranho isso não é? Essa coisa de vergonha. A vergonha é minha, claro, disso tenho clareza. Mas às vezes acho que tem alguma a ver com a vida lá fora, sabe? Por exemplo, hoje sinto-me extremamente constrangido pelos ouvidos, sinto-os cada vez menores e mais impacientes. Eles não querem escutar a gente. Eles me olham com cada olho, isso quando me deixam falar. É estranho, Cecília, os ouvidos de hoje continuam sensibilizados, e nisso meus olhos não mentem, mas deixam-me falar cada vez menos. Não gosto disso. Meus olhos já reclamaram, disseram pra eu excluir alguns ouvidos da minha lista. Segundo ele, eles não passam de orelha. Fingem que são amigos mas só servem para acumular cera. Acho que eles tem alguma razão. Meus braços são menos radicais, mas esses eu conheço bem e sei que é por puro egoísmo. Ou hedonismo. Para aqueles dois, pouco importam a qualidade da conversa, do que se fala ou do que se ouve, contando que tudo termine em abraço. São uns pervertidos. Ah, e já que comecei a falar, as pernas estão como as suas, tímidas. Bem que você tinha avisado, hoje elas ignoram ou desconhecem diversos caminhos que um dia já foram até casa, estão parecendo a cabeça, que agora deu pra não reconhecer passado. Essa aí olha pras fotos e fica com cara de boba. Diz ela que até reconhece o pessoal, lembra, sabe que existiram, mas se pedissem para que apontasse ela mesma nas fotos ela não o saberia fazer. Apesar de velha, sua sensação é de que nasceu há pouco tempo, há poucos dias, após uma gestação de pouco mais de dois anos. Anda perdidinha, tadinha, deu pra viajar... Quem diria hein, eu que sempre malhava essa sua mente vadia. É, minha cara amiga, a cada dia te entendo melhor e mais profundamente.
Um beijo, moça. Até a próxima. Ps: responda minha última carta. :/
domingo, 5 de maio de 2013
Piu uíííí, tchak, tchak, tchak tchak, tchak, tchak… Piu uíííí
O ‘abismo que é pensar e sentir’ é uma das frases da minha vida, uma das minhas máximas, talvez. Não sei se por escolha deliberada ou trajetória à deriva, esse foi o caminho que percorri e que ainda trilho diariamente, e não sem estrago.
Este também é o ruído que o coração, teimoso em bater, emite aqui do lado de dentro. Barulhinho alto, constante, mas que se faz ouvir a qualquer um que, com alguma sensibilidade, se aproxima do mar por onde navega esse meu trem que não é de ferro, é de lágrima.
Sem valentia e calmo demais, sinto-me um homem estranho, e meu barco navega ao ritmo da chuva. Indeciso, sou passageiro de um destino que só vai ser como será. Quando será?
Pois é, ouvi dizer, não me lembro aonde, que esse ruído costuma ser eterno, faz no peito um carnaval que nunca tem fim... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí.... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí pensar e sentir... o vento vai dizer.
Este também é o ruído que o coração, teimoso em bater, emite aqui do lado de dentro. Barulhinho alto, constante, mas que se faz ouvir a qualquer um que, com alguma sensibilidade, se aproxima do mar por onde navega esse meu trem que não é de ferro, é de lágrima.
Sem valentia e calmo demais, sinto-me um homem estranho, e meu barco navega ao ritmo da chuva. Indeciso, sou passageiro de um destino que só vai ser como será. Quando será?
Pois é, ouvi dizer, não me lembro aonde, que esse ruído costuma ser eterno, faz no peito um carnaval que nunca tem fim... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí.... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí pensar e sentir... o vento vai dizer.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Cara Cecília,
há quantas luas não te escrevo. Quanta
saudade! Se bem lhe conheço, deves estar preocupada. Sei que sua ingenuidade não lhe
permite compreender a necessidade da ausência e associas, inutilmente, ausência ao agravamento da tristeza. No caso deste que te escreve, e não posso mentir a você, em quase todos os seus sumiços a
hipótese especulada acima faz-se especialmente verdadeira, contudo, e isso já lhe ensinei, não tome a experiência de seu amigo como referência para
julgar o mundo. Seu amigo não mora nele, e é por isso que lhe escreve.
Dá última vez que nos
vimos, senti-a mais calada que de costume e não me recordo da explicação que me destes para a ocasião daquele rosto lânguido, que mantivera durante toda a nossa
conversa. Desculpo-me. Como de costume, eu devia de estar pensando em mim, como a maioria dos
seres normais, esquecendo-me de que nasci nós. Peço-lhe, portanto, que se
não for lhe causar incômodo, para enviar-me a explicação de sua melancolia na resposta desta carta, ficarei muito grato em saber. Quero voltar a me preocupar com os meus amigos, se
ultimamente não o ando fazendo, gasto contigo, pela segunda vez nesta carta, a palavra que
mereceria menor banalização: desculpe-me.
Ontem fui à casa do meu
pai, ele não estava, mas chegou logo depois enquanto eu conversava - sem
palavras - com o João. O velho chegou e deu-me um abraço. Não me levantei da cama
para abraça-lo, fiquei estático enquanto ele se curvava. Depois, quando ele já
havia partido, fui tomado por uma sensação ruim, de arrependimento, mas o sonho
já havia acabado. Não havia mais como abraça-lo. Você, que é versada nas ilhas
dos sonhos, sabe como faço para encontra-lo novamente? Se puder, mande-me uma
daquelas suas receitas de sonhação, tenho coisas a tratar com o velho, ando
confuso com algumas coisas e creio que só alguém com aquela ponderação pode me
acalmar.
Outra coisa... sabe onde
encontro certeza? É que, pensando nisso, dia desses, lembrei-me de uma conversa
nossa em que você disse que sabia de algumas que eu podia usar, não sei se suas ou de um amigo
seu, mas que me serviriam e não seria problema me emprestar. Olha isso pra mim, por favor, tenho uns
eventos pela frente e vou precisar. Comprei um sapato novo, uma bela camisa,
mas minhas certezas estão meio relaxadas. Não sei se vão me aceitar desse jeito. É
que o evento é meio formal, sabe?
Aqui... infelizmente tenho
que sair pois estou escrevendo essa carta no tempinho que me sobrou entre um
ponteiro e outro, mas o tempo já está acabando e no próximo espaço entre eles eu preciso estar em
outro lugar. Volto a lhe escrever em breve, tenho muitas novidades, e algumas
te deixarão feliz! Não demore a responder, tenho saudades, e sem notícias suas
não é raro que eu imagine ter sido esquecido. Não é legal quando fazem com a gente.
Um beijo, e dê um abraço no João.
Ps: Quando é que você
viaja?
Ps (2): Quando você
retorna?
Ps (3): Apareça quando
quiser. :)
terça-feira, 30 de abril de 2013
Corrida
- Por que Eu,
exatamente Eu, não sinto nada? Pergunto-me sempre que corro. Um ataque, um
cansaço diferente, um mal súbito qualquer serviria. Mas não, você não, é o que
responde meu corpo impassível e pretensioso, como se fosse muito forte.
Eu, quando comecei a
correr ainda não sofria, estava bem, recuperado da primeira queda e corria
apenas para emagrecer alguns quilos, perder a barriga, mas depois fui gostando.
Fosse eu biólogo ou químico, ou esse texto datado de 4 anos atrás, certamente
eu tributaria esse prazer à endorfina. Hoje, contudo, eu não seria tão leviano,
e cometeria uma imensa injustiça comigo mesmo se negasse o prazer de estar só.
Durante a corrida eu
penso na vida e conto o tempo de forma diferente. Ali - liberto, tranquilo, eu
mesmo - eu tenho, dependendo da disposição, em torno de 5 a 8 Km meus no dia,
dos quais não divido um minuto sequer com um rosto familiar, ultimamente
insuportáveis. Na pista, eu sou in-divido, e, ao menos em sensação, pleno.
Nesse espaço-tempo
convivo somente com minhas músicas e angústias, e embora corra pelas minhas
medalhas, nem sempre almejo vitórias. Já corri pelo futuro, planejando,
imaginando e chegando; pelo presente, fugindo, refletindo e me cuidando; porém,
ultimamente, eu corro - quase sempre -
pelo passado, pelas lembranças. Correndo, seguindo em frente, eu vejo ali a
minha máquina do tempo, que não intenta pará-lo, mas apressá-lo dignamente. E
esperançoso, eu corro.
Há algum tempo fiz um
teste, queria ver o quanto meu corpo suportava. A ideia era chegar ao limite,
passar dele, ver as consequências, o estrago. Nada. Fiz cinco, oito, na raça eu
cheguei aos dez Km, continuei até doze, sei lá. Nada. À linha de chegada,
alcancei vivo, morrendo no máximo umas 800 calorias, talvez 1000. Entretanto,
em tempo, e sem que desejasse, bati um recorde, cheguei até aqui à frente de
todos. Ninguém a frente, ninguém atrás, ninguém ao lado, ninguém mais corre
comigo.
Os treze Km, insuficientes
para vencer o coração, não me deram
sucesso, nem com a barriga nem com o passado. Ainda assim, preso ao presente ao final de cada jornada,
eu sentia no peito a medalha vermelha, suada, batendo sua ironia - covardemente
- na minha cara. Contra a derrota eu armo vinganças a cada semana, mas
fracasso. Já alcancei os 15 e, pelos meus cálculos, ultrapassarei os 17 Km em
duas semanas. Se a vitória não me impedir, correrei a Pampulha em dezembro e a
São Silvestre em dois anos. São 42 Km. Dessa última, eu sei, o coração não
escapa.
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