sábado, 1 de dezembro de 2012

The Truman Show


Eu já estava deitado, quase dormindo, e então tive uma ideia que penso estar correta.
– O mundo gira ao Meu redor.

É sério, tenho quase certeza. Durante a infância eu já desconfiava, afinal, tudo só acontecia comigo, e agora, adulto, tinha a mesma impressão. Querem ver, olhem só como tudo o que acontece tem a minha vida como centro. Quanto à morte, por exemplo. Já morreram a Minha irmã, o Meu pai, o Meu irmão, o Meu avô - que desconfio não ser acaso o fato de ser Meu padrinho – e as Minhas bisavós.

- Ah, sim, mas eram todos da família dele, portanto, é claro que eram Seus, vocês poderiam me questionar. Mas não é isso. E cito a morte como exemplo exatamente por que esta, não sei por que maldita sorte, possui por mim especial predileção. Não é por acaso que seu exemplo servirá de pedra fundamental da minha teoria.

Reparem. Mesmo os que não eram da minha família eram Meus. Segue a lista. Morreu o pai de um amigo Meu. O pai de outro amigo Meu. O marido da Minha tia. O irmão de um amigo Meu. E pasmem, até o namorado da irmã da mãe de um amigo de colégio faleceu. Uma verdadeira perseguição. Mais que isso, um absurdo. Estão morrendo inocentes, pessoas de futuros promissores, simplesmente por possuírem comigo algum grau de relação!

Eu já não consigo dormir. A cada ligação, e-mail ou mensagem, eu já me preparo para o pior. – Quem será que “foi” agora? E Eu ainda tenho mãe, irmã, namorada e muitos amigos pelos quais eu temo. É um tormento. Mas o engraçado é que ela, a morte, nunca chega em Mim, e esse é o ponto crucial da Minha ideia, da Minha teoria. Claro que não chega e não vai chegar nunca, alias, a grande questão é: por que não chega? A resposta é simples, óbvia. – Por que não pode. Se me desligarem quem vai assistir a essa TV, para quem passarão esses programas? Pra quem essas pessoas vão se exibir, nascer, morrer, etc. Quem saberá que elas existem? Ninguém. Ou seja, se eu encerrar o mundo acaba, fica escuro, preto, como uma televisão desligada. Ou melhor, ao contrário. Uma televisão ligada, mas sem espectador algum. E a explicação eu já descobri há pelo menos 20 anos, ainda menino: só Eu assisto, Sou o único. Os outros apenas representam, vivem à minha janela e existem somente sob a minha vigília.

Eu já tentei mudar de lugar. Quando era criança eu costumava fechar os olhos, esperava um pouco, mentalizava uma troca de corpos, mas quando os abria estava sentado na mesma poltrona, no mesmo Eu. Ingênuo, na minha infantil crise existencial, eu refletia:  - E se eu morrer, o que acontecerá?


Na época eu apenas desconfiava, ainda não tinha certeza, mas hoje sei que se eu morresse seria o fim. Não só o Meu, mas de toda a humanidade. Quanto peso, não sei por quanto tempo consigo suportar.

Tiago 25/08/2012

PS: Escrevi e datei o texto. Hoje me deparei com ele, apenas corrigi e publiquei. Infelizmente, os eventos recentes confirmam minha teoria.

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