sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre mães e filhos ou Por que odeio encontrar mães


A mãe, ou as mães, na mitologia cristã, possuem status de seres imaculados. A mulher, quando ascende a este lugar liberta-se do estima de Eva, agente do pecado inicial e responsável pela corrupção humana e assemelha-se à Maria, mãe virgem do menino Deus. Pura, irrepreensível, impecável, perfeita. Curiosamente, até onde se tem notícia, Maria é a única mãe que nunca amou, como um dia definiu perfeitamente Fernando Pessoa no ótimo poema da pomba estúpida. Curioso pensar o quanto demonizamos o sexo.

Para além de seus filhos preguiçosos e maridos infiéis esta é a cruz carregada pela maioria das mães de dois mil anos pra cá. Deixa-se de ser mulher e se conforma em mais do que uma fêmea que tem ou teve filhos como poderia simplesmente definir o dicionário, mas transmuta-se também em figura de linguagem, “mulher carinhosa, protetora, pessoa que chora facilmente”.

Aquele time é uma mãe, é o que no futebolês se diz de um time fraco, vencido por todos não opondo dificuldade alguma ao oponente. O adjetivo cabe também a uma amiga companheira de todas as horas, aquela gordinha que prepara o almoço e que não deixa panela suja na pia durante a festa de Réveillon. Gordinha por que mãe não pode ser gostosa, e nem vai à festa de Réveillon. As gostosas, a propósito, em geral estão ocupadas, sobretudo nestes grandes eventos.

Assim são as mães. Assexuadas, puras, bondosas, prestativas, carinhosas, enfim, mães. No entanto, e só venho percebendo de uns tempos pra cá, as mães tem uma faceta cruel que, diga-se de passagem, é pouco veiculada por uma imprensa suspeita, calada certamente por parte dos milhões movimentados pelo Dia das Mães. Refiro-me aqui à sinceridade materna, não a derramada sobre os próprios filhos pois sabemos todos da cegueira que atinge a todas as mães do mundo no que concerne aos defeitos de sua cria, mantendo com estes uma relação marcada pela complacência, mas a sinceridade contra “O outro”. Aquele que não é seu filho, irmão ou pai. Não cito o marido visto que este sente o peso da língua da virgem. Talvez por isso a Pomba tenha optado pela moderna ideia de uma barriga de aluguel.

Conquanto possa ter me perdido numa longa introdução, defendo-me apelando para a sua necessidade, afinal, não se fala da mãe sem rodeios. A forma direta sugere ofensa.

Acontece é que um dia desses, caminhando pelo shopping encontrei uma mãe. E embora trouxesse a cara fechada, a cabeça levemente abaixada e um olhar estranho acima dos óculos como sempre faço em locais públicos, ela me viu, parou, e sorriu. Como não parar? Oi, você é o... Tiago, irmão da Ana, respondi recompondo a cara. Aqui, fulana, dizia se dirigindo a uma jovem de cara assustada, esse aqui é o Tiago irmão da Ana Luísa.

Cruel. Maldita mãe cruel. Em um segundo e meio desejei encontra-la um mês após a morte de sua filha e, sorridente, pará-la num shopping pra lhe apresentar aos meus amigos. Fulano, é dela que te falei, aquela que perdeu a filha, o pai e o esposo em menos de dois anos. Mas aí me lembrei da amizade com sua filha e, principalmente, que os filhos, ao menos enquanto jovens, não fazem isso. Essa crueldade inocente é prerrogativa das mães.

Fosse um filho, irmão ou pai de amigo, passaria direto. Faria, como eu mesmo tento sempre fazer, fingir não ver o conhecido e seguir. No caso dessa possibilidade ser impedida por um incômodo e indisfarçável encontro de olhares, um tchau discreto seguido de um andar mais apressado resolveria, e assim ambos seguiriam seu caminho enquanto a respiração se normalizava.

Contudo, com as mães, isso não acontece. As mães param, interrogam, comentam. Não fogem do assunto, sobretudo quando o assunto é o filho ou, neste caso, a filha da outra. É bem verdade que a cara de normalidade com que nos encaram tal qual a sinceridade com que perguntam sobre o que ninguém quer falar não é pior do que a cara de pena que em geral recebo dos pais ou filhos que, em geral mais cometidos, cuidadosos, e de menor capacidade cênica, ficam nervosos falando de qualquer coisa, exceto do realmente que importa.

Por fim, numa última denúncia, notei que as mães são solidárias com outras mães. E só. Suas perguntas sempre se dirigem a recolher informações sobre a minha. Lamentam sua desditosa sorte, se colocam no seu lugar e enviam-lhe um abraço prometendo uma visita em breve. De mim, nem uma pergunta sequer. Você tem que ser forte, cuide da sua mãe, dizem sem o menor pudor. Consolo-me por saber que a minha sabe que também sofro, e cuida de mim.

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