A mãe, ou as mães, na
mitologia cristã, possuem status de seres imaculados. A mulher, quando ascende
a este lugar liberta-se do estima de Eva, agente do pecado inicial e
responsável pela corrupção humana e assemelha-se à Maria, mãe virgem do menino
Deus. Pura, irrepreensível, impecável, perfeita. Curiosamente, até onde se tem
notícia, Maria é a única mãe que nunca amou, como um dia definiu perfeitamente Fernando
Pessoa no ótimo poema da pomba estúpida. Curioso pensar o quanto demonizamos o sexo.
Para além de seus filhos
preguiçosos e maridos infiéis esta é a cruz carregada pela maioria das mães de
dois mil anos pra cá. Deixa-se de ser mulher e se conforma em mais do que uma
fêmea que tem ou teve filhos como poderia simplesmente definir o dicionário, mas
transmuta-se também em figura de linguagem, “mulher carinhosa, protetora,
pessoa que chora facilmente”.
Aquele time é uma mãe, é o
que no futebolês se diz de um time fraco, vencido por todos não opondo
dificuldade alguma ao oponente. O adjetivo cabe também a uma amiga companheira
de todas as horas, aquela gordinha que prepara o almoço e que não deixa panela
suja na pia durante a festa de Réveillon. Gordinha por que mãe não pode ser
gostosa, e nem vai à festa de Réveillon. As gostosas, a propósito, em geral
estão ocupadas, sobretudo nestes grandes eventos.
Assim são as mães.
Assexuadas, puras, bondosas, prestativas, carinhosas, enfim, mães. No entanto,
e só venho percebendo de uns tempos pra cá, as mães tem uma faceta cruel que, diga-se
de passagem, é pouco veiculada por uma imprensa suspeita, calada certamente por
parte dos milhões movimentados pelo Dia das Mães. Refiro-me aqui à sinceridade
materna, não a derramada sobre os próprios filhos pois sabemos todos da
cegueira que atinge a todas as mães do mundo no que concerne aos defeitos de
sua cria, mantendo com estes uma relação marcada pela complacência, mas a sinceridade contra “O outro”. Aquele que não é seu filho, irmão ou pai. Não cito
o marido visto que este sente o peso da língua da virgem. Talvez por isso a Pomba
tenha optado pela moderna ideia de uma barriga de aluguel.
Conquanto possa ter me
perdido numa longa introdução, defendo-me apelando para a sua necessidade, afinal,
não se fala da mãe sem rodeios. A forma direta sugere ofensa.
Acontece é que um dia
desses, caminhando pelo shopping encontrei uma mãe. E embora trouxesse a cara
fechada, a cabeça levemente abaixada e um olhar estranho acima dos óculos como
sempre faço em locais públicos, ela me viu, parou, e sorriu. Como não parar?
Oi, você é o... Tiago, irmão da Ana, respondi recompondo a cara. Aqui, fulana,
dizia se dirigindo a uma jovem de cara assustada, esse aqui é o Tiago irmão da
Ana Luísa.
Cruel. Maldita mãe cruel. Em
um segundo e meio desejei encontra-la um mês após a morte de sua filha e, sorridente,
pará-la num shopping pra lhe apresentar aos meus amigos. Fulano, é dela que te
falei, aquela que perdeu a filha, o pai e o esposo em menos de dois anos. Mas
aí me lembrei da amizade com sua filha e, principalmente, que os filhos, ao
menos enquanto jovens, não fazem isso. Essa crueldade inocente é prerrogativa
das mães.
Fosse um filho, irmão ou pai
de amigo, passaria direto. Faria, como eu mesmo tento sempre fazer, fingir não
ver o conhecido e seguir. No caso dessa possibilidade ser impedida por um
incômodo e indisfarçável encontro de olhares, um tchau discreto seguido de um
andar mais apressado resolveria, e assim ambos seguiriam seu caminho enquanto a
respiração se normalizava.
Contudo, com as mães, isso
não acontece. As mães param, interrogam, comentam. Não fogem do assunto, sobretudo
quando o assunto é o filho ou, neste caso, a filha da outra. É bem verdade que a cara de
normalidade com que nos encaram tal qual a sinceridade com que perguntam sobre o que ninguém quer falar não é pior do que a cara de pena que em geral
recebo dos pais ou filhos que, em geral mais cometidos, cuidadosos, e de menor
capacidade cênica, ficam nervosos falando de qualquer coisa, exceto do realmente que importa.
Por fim, numa última denúncia, notei que as mães são solidárias com
outras mães. E só. Suas perguntas sempre se dirigem a recolher informações sobre a
minha. Lamentam sua desditosa sorte, se colocam no seu lugar e enviam-lhe um
abraço prometendo uma visita em breve. De mim, nem uma pergunta sequer. Você
tem que ser forte, cuide da sua mãe, dizem sem o menor pudor. Consolo-me por
saber que a minha sabe que também sofro, e cuida de mim.
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