Às vezes, quando passamos
por experiências traumáticas, somos subitamente tomados por um sentimento paralisante.
E diria um jogador de futebol, comigo não é diferente. A sensação é de que nada
faz sentido, o que é verdadeiro em grande parte, sobretudo quando o fato
traumático é repentino. Há um minuto você esperava encontrar sua irmã em casa;
há um ano e meio planejava tocar percussão pra acompanha-lo no cavaquinho e há
dois anos e meio talvez almejasse um bom emprego pra orgulhar o melancólico
pai. Contudo, hoje, essas pessoas são fotos num altar da sala. É preciso
reorganizar a vida, aprender a pensar sem estas pessoas, não contar mais com
elas. Não que elas de fato fossem fazer alguma coisa concreta em prol de seus
planos futuros ou que fossem únicos motivos pelos quais você buscava
alcança-los, mas elas desempenhavam um papel fundamental, o de estarem lá.
Antes eu podia cita-los em
rodas de amigos de qualquer boteco da noite de BH sem causar embaraço nos
presentes que me conhecem profundamente ou em mim mesmo, rindo, e sem marejar
os olhos. Eu também brigava muito com a minha irmã, dizia. Contava orgulhoso
que meu irmão tocava aquela música melhor que eu ou que minha irmã já leu O
Diário de Anne Frank. Ponderado tanto quanto sensato, meu pai também já foi
grande referência quando o assunto era futebol.
É estranho. Meu passado hoje
não é meu. É um passado que não se converterá em um futuro que, antes, era líquido
e certo. Tudo bem, talvez meus filhos não tivessem avô, afinal, nem todo mundo
tem avô, mas tios eles teriam. Eu sou o mais velho, por que não? Se o mundo
fosse correto, os filhos deles é que talvez não tivesse um tio. Mas hoje, nesse
futuro estranho e nunca previsto, os filhos que eu não terei é que não terão
avô, tio, ou tias.
É difícil reelaborar esse
futuro que não se precisa planejar, exatamente por que ele é certo, por isso
nos dá segurança. Posso mudar de namorada, de carreira profissional, trocar os
amigos e o sexo, mas não as pessoas que me apoiariam em qualquer uma dessas
mudanças. Tampouco arriscar qualquer uma delas sem esse apoio. De agora em
diante a margem de erro tem de ser menor. Pra onde correr em caso de fracasso?
Você tem muitos amigos.
Amigos são irmãos que você escolheu pra vida e não os que a vida escolheu pra
você. Bela máxima, verdadeira, e cruel. Amo meus amigos, mas são amigos, e
ponto. Não dividiram comigo um passado remoto em comum, nunca levei nenhum deles
à escola, e tenho minhas dúvidas se trancaria o curso que sempre desejei caso o
moribundo fosse algum deles. Até por que eu amei os irmãos que a vida “deu” pra
mim. Fui amigo de todos eles, sem exceção, e foram muitos. Foram. Não é fácil
ter de usar o verbo no passado e por isso evito os comentários na mesa de
boteco. Todos fazem, bebem, se divertem e brigam com
seus irmãos. Hoje, no present continuous.
Meu passado mudou com
extrema velocidade, tornando meu presente estranho e o futuro inexistente, a
reescrever. Muitos papéis antes definidos agora estão em aberto e certamente
nunca serão preenchidos. Terei de mudar a história. Meu presente e futuro são
um quadro negro cheio de manchas de mãos que, sem tempo de pegar o apagador, apressadamente
corrigiram erros nas frases mais simples da vida de qualquer pessoa. O irmão
do Tiago toca violão e suas irmãs são lindas. O Tiago é o mais velho da Márcia.
Não, escreve logo abaixo alguém com o resto do giz rosa, o único.
Fato é que, com tantas
mudanças, exatamente na base, naquele local em que é inútil todo esforço de
compreensão, fica difícil pensar no futuro. Pensar na semana que vêm. Pra que,
ou pra quem vou atuar? É como se o tiro me acertasse sempre no coração, e o
pior é que eu continuo vivo. Zumbizando nas séries de TV nas noites sem sono, nas
mesas de boteco com um sorriso amarelo nos assuntos em que se machuca
participar e nessa vida de planos interrompidos por uma dor paralisante, vida de
por vir, uma eterna promessa. Um
quase professor, quase historiador, quase antropólogo, quase irmão.
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