quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ode aos amigos


Quem nunca escreveu uma cartinha de amor que atire a primeira pedra. Namorados reais ou platônicos, não importa, todos já foram inspiração para se rabiscar num papel. Inspiração e coragem. Há pessoas que nunca escrevem senão quando estão apaixonadas. Eu mesmo, se estivéssemos ainda na era analógica, além de uma caixa de sapatos para os pequenos cartões, teria ainda uma pasta cheia, abarrotada, com os elásticos esticados de tanto peso, mais escritas que recebidas. Para prejuízo da caneta e da minha caligrafia, tenho atualmente alguns megabytes de escritos patéticos escondidos numa pasta de nome estranho. Para não ser descoberto uso um pseudônimo escolhido aleatoriamente dos créditos do CD de uma banda que eu gosto. Dia desses topei com meu homônimo na TV, descobri que é um músico e produtor respeitado.

As cartas de amor são ridículas, patéticas como devem de ser, pois falam de amor. Os indecisos falam de sentimentos que não conseguem descrever, os corajosos e prudentes arriscam um eu te adoro, enquanto os inseguros mentem descaradamente dizendo que não esperam resposta, ridículos.


Porém, todavia, contudo, estas, as cartas ridículas, são as cartas entre amantes. Pessoas cujo interesse - nem sempre mútuo - vai além da amizade. Nunca li na carteira da minha escola “Eulálio e Antônio se amam, amizade eterna”. Acredito que as meninas, educadas de forma diferente e melhor que os homens nesse sentido, tenham tido permissão para serem ridículas com as amigas desde cedo. Sortudas, por meio de abraços, cartinhas, presentes e outras intimidades podiam expressar seu amor pelo mesmo sexo sem sofrer gozação.


Os homens, antes mesmo de saberem o que é sexo ou de saber o que fazer com o seu além de se aliviar, aprendem a ser inseguros com ele. Não nos ensinam o que é certo, mas o que é errado. Qualquer mijada fora do penico é seguida de um “viado”, estridente, entoado por um gordinho com mais seio que a sua irmã. Era o seu ponto fraco, eu sabia, mas preferia ficar calado a apanhar por sugerir um sutiã.


Portanto, se um abraço no pai já era “uma coisa”, estranha, difícil, truncada, carta de amor a um amigo era impossível. Amizade de homem é séria, balizada na filha da puta da mãe do outro, não tem essa de eu te amo.


De fato, foi o que notei vasculhando a caixinha de sapatos do fundo das minhas memórias, o que a caixa do fundo do meu armário ajudou a comprovar, nunca escrevi ou recebi uma carta ridícula de um amigo. Nenhum eu te adoro falado ou escrito.


Logo eles, que mais que as amantes "estarão aí" pra vida toda, não sabem que eu os amo, não tem ainda uma prova do meu amor. Assim como meu pai, que a despeito de o Dia dos Pais ou meu amor por ele não terem deixado de existir, não recebeu uma só carta minha depois que deixei o primário.


Por sorte, hoje, mais velho, mais seguro e menos preocupado com a opinião alheia, escrevo cartas de amor aos meus amigos. Algumas, que não entrego, e que só serão reveladas por algum historiador de mim num futuro póstumo, e outras abertas, como essa aqui, postada num blog em que quase ninguém lê, senão eles, meus amigos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre mães e filhos ou Por que odeio encontrar mães


A mãe, ou as mães, na mitologia cristã, possuem status de seres imaculados. A mulher, quando ascende a este lugar liberta-se do estima de Eva, agente do pecado inicial e responsável pela corrupção humana e assemelha-se à Maria, mãe virgem do menino Deus. Pura, irrepreensível, impecável, perfeita. Curiosamente, até onde se tem notícia, Maria é a única mãe que nunca amou, como um dia definiu perfeitamente Fernando Pessoa no ótimo poema da pomba estúpida. Curioso pensar o quanto demonizamos o sexo.

Para além de seus filhos preguiçosos e maridos infiéis esta é a cruz carregada pela maioria das mães de dois mil anos pra cá. Deixa-se de ser mulher e se conforma em mais do que uma fêmea que tem ou teve filhos como poderia simplesmente definir o dicionário, mas transmuta-se também em figura de linguagem, “mulher carinhosa, protetora, pessoa que chora facilmente”.

Aquele time é uma mãe, é o que no futebolês se diz de um time fraco, vencido por todos não opondo dificuldade alguma ao oponente. O adjetivo cabe também a uma amiga companheira de todas as horas, aquela gordinha que prepara o almoço e que não deixa panela suja na pia durante a festa de Réveillon. Gordinha por que mãe não pode ser gostosa, e nem vai à festa de Réveillon. As gostosas, a propósito, em geral estão ocupadas, sobretudo nestes grandes eventos.

Assim são as mães. Assexuadas, puras, bondosas, prestativas, carinhosas, enfim, mães. No entanto, e só venho percebendo de uns tempos pra cá, as mães tem uma faceta cruel que, diga-se de passagem, é pouco veiculada por uma imprensa suspeita, calada certamente por parte dos milhões movimentados pelo Dia das Mães. Refiro-me aqui à sinceridade materna, não a derramada sobre os próprios filhos pois sabemos todos da cegueira que atinge a todas as mães do mundo no que concerne aos defeitos de sua cria, mantendo com estes uma relação marcada pela complacência, mas a sinceridade contra “O outro”. Aquele que não é seu filho, irmão ou pai. Não cito o marido visto que este sente o peso da língua da virgem. Talvez por isso a Pomba tenha optado pela moderna ideia de uma barriga de aluguel.

Conquanto possa ter me perdido numa longa introdução, defendo-me apelando para a sua necessidade, afinal, não se fala da mãe sem rodeios. A forma direta sugere ofensa.

Acontece é que um dia desses, caminhando pelo shopping encontrei uma mãe. E embora trouxesse a cara fechada, a cabeça levemente abaixada e um olhar estranho acima dos óculos como sempre faço em locais públicos, ela me viu, parou, e sorriu. Como não parar? Oi, você é o... Tiago, irmão da Ana, respondi recompondo a cara. Aqui, fulana, dizia se dirigindo a uma jovem de cara assustada, esse aqui é o Tiago irmão da Ana Luísa.

Cruel. Maldita mãe cruel. Em um segundo e meio desejei encontra-la um mês após a morte de sua filha e, sorridente, pará-la num shopping pra lhe apresentar aos meus amigos. Fulano, é dela que te falei, aquela que perdeu a filha, o pai e o esposo em menos de dois anos. Mas aí me lembrei da amizade com sua filha e, principalmente, que os filhos, ao menos enquanto jovens, não fazem isso. Essa crueldade inocente é prerrogativa das mães.

Fosse um filho, irmão ou pai de amigo, passaria direto. Faria, como eu mesmo tento sempre fazer, fingir não ver o conhecido e seguir. No caso dessa possibilidade ser impedida por um incômodo e indisfarçável encontro de olhares, um tchau discreto seguido de um andar mais apressado resolveria, e assim ambos seguiriam seu caminho enquanto a respiração se normalizava.

Contudo, com as mães, isso não acontece. As mães param, interrogam, comentam. Não fogem do assunto, sobretudo quando o assunto é o filho ou, neste caso, a filha da outra. É bem verdade que a cara de normalidade com que nos encaram tal qual a sinceridade com que perguntam sobre o que ninguém quer falar não é pior do que a cara de pena que em geral recebo dos pais ou filhos que, em geral mais cometidos, cuidadosos, e de menor capacidade cênica, ficam nervosos falando de qualquer coisa, exceto do realmente que importa.

Por fim, numa última denúncia, notei que as mães são solidárias com outras mães. E só. Suas perguntas sempre se dirigem a recolher informações sobre a minha. Lamentam sua desditosa sorte, se colocam no seu lugar e enviam-lhe um abraço prometendo uma visita em breve. De mim, nem uma pergunta sequer. Você tem que ser forte, cuide da sua mãe, dizem sem o menor pudor. Consolo-me por saber que a minha sabe que também sofro, e cuida de mim.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Passado, presente? e futuro?


Às vezes, quando passamos por experiências traumáticas, somos subitamente tomados por um sentimento paralisante. E diria um jogador de futebol, comigo não é diferente. A sensação é de que nada faz sentido, o que é verdadeiro em grande parte, sobretudo quando o fato traumático é repentino. Há um minuto você esperava encontrar sua irmã em casa; há um ano e meio planejava tocar percussão pra acompanha-lo no cavaquinho e há dois anos e meio talvez almejasse um bom emprego pra orgulhar o melancólico pai. Contudo, hoje, essas pessoas são fotos num altar da sala. É preciso reorganizar a vida, aprender a pensar sem estas pessoas, não contar mais com elas. Não que elas de fato fossem fazer alguma coisa concreta em prol de seus planos futuros ou que fossem únicos motivos pelos quais você buscava alcança-los, mas elas desempenhavam um papel fundamental, o de estarem lá.

Antes eu podia cita-los em rodas de amigos de qualquer boteco da noite de BH sem causar embaraço nos presentes que me conhecem profundamente ou em mim mesmo, rindo, e sem marejar os olhos. Eu também brigava muito com a minha irmã, dizia. Contava orgulhoso que meu irmão tocava aquela música melhor que eu ou que minha irmã já leu O Diário de Anne Frank. Ponderado tanto quanto sensato, meu pai também já foi grande referência quando o assunto era futebol.

É estranho. Meu passado hoje não é meu. É um passado que não se converterá em um futuro que, antes, era líquido e certo. Tudo bem, talvez meus filhos não tivessem avô, afinal, nem todo mundo tem avô, mas tios eles teriam. Eu sou o mais velho, por que não? Se o mundo fosse correto, os filhos deles é que talvez não tivesse um tio. Mas hoje, nesse futuro estranho e nunca previsto, os filhos que eu não terei é que não terão avô, tio, ou tias.

É difícil reelaborar esse futuro que não se precisa planejar, exatamente por que ele é certo, por isso nos dá segurança. Posso mudar de namorada, de carreira profissional, trocar os amigos e o sexo, mas não as pessoas que me apoiariam em qualquer uma dessas mudanças. Tampouco arriscar qualquer uma delas sem esse apoio. De agora em diante a margem de erro tem de ser menor. Pra onde correr em caso de fracasso?

Você tem muitos amigos. Amigos são irmãos que você escolheu pra vida e não os que a vida escolheu pra você. Bela máxima, verdadeira, e cruel. Amo meus amigos, mas são amigos, e ponto. Não dividiram comigo um passado remoto em comum, nunca levei nenhum deles à escola, e tenho minhas dúvidas se trancaria o curso que sempre desejei caso o moribundo fosse algum deles. Até por que eu amei os irmãos que a vida “deu” pra mim. Fui amigo de todos eles, sem exceção, e foram muitos. Foram. Não é fácil ter de usar o verbo no passado e por isso evito os comentários na mesa de boteco. Todos fazem, bebem, se divertem e brigam com seus irmãos. Hoje, no present continuous.

Meu passado mudou com extrema velocidade, tornando meu presente estranho e o futuro inexistente, a reescrever. Muitos papéis antes definidos agora estão em aberto e certamente nunca serão preenchidos. Terei de mudar a história. Meu presente e futuro são um quadro negro cheio de manchas de mãos que, sem tempo de pegar o apagador, apressadamente corrigiram erros nas frases mais simples da vida de qualquer pessoa. O irmão do Tiago toca violão e suas irmãs são lindas. O Tiago é o mais velho da Márcia. Não, escreve logo abaixo alguém com o resto do giz rosa, o único.

Fato é que, com tantas mudanças, exatamente na base, naquele local em que é inútil todo esforço de compreensão, fica difícil pensar no futuro. Pensar na semana que vêm. Pra que, ou pra quem vou atuar? É como se o tiro me acertasse sempre no coração, e o pior é que eu continuo vivo. Zumbizando nas séries de TV nas noites sem sono, nas mesas de boteco com um sorriso amarelo nos assuntos em que se machuca participar e nessa vida de planos interrompidos por uma dor paralisante, vida de por vir, uma eterna promessa. Um quase professor, quase historiador, quase antropólogo, quase irmão.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

The Truman Show


Eu já estava deitado, quase dormindo, e então tive uma ideia que penso estar correta.
– O mundo gira ao Meu redor.

É sério, tenho quase certeza. Durante a infância eu já desconfiava, afinal, tudo só acontecia comigo, e agora, adulto, tinha a mesma impressão. Querem ver, olhem só como tudo o que acontece tem a minha vida como centro. Quanto à morte, por exemplo. Já morreram a Minha irmã, o Meu pai, o Meu irmão, o Meu avô - que desconfio não ser acaso o fato de ser Meu padrinho – e as Minhas bisavós.

- Ah, sim, mas eram todos da família dele, portanto, é claro que eram Seus, vocês poderiam me questionar. Mas não é isso. E cito a morte como exemplo exatamente por que esta, não sei por que maldita sorte, possui por mim especial predileção. Não é por acaso que seu exemplo servirá de pedra fundamental da minha teoria.

Reparem. Mesmo os que não eram da minha família eram Meus. Segue a lista. Morreu o pai de um amigo Meu. O pai de outro amigo Meu. O marido da Minha tia. O irmão de um amigo Meu. E pasmem, até o namorado da irmã da mãe de um amigo de colégio faleceu. Uma verdadeira perseguição. Mais que isso, um absurdo. Estão morrendo inocentes, pessoas de futuros promissores, simplesmente por possuírem comigo algum grau de relação!

Eu já não consigo dormir. A cada ligação, e-mail ou mensagem, eu já me preparo para o pior. – Quem será que “foi” agora? E Eu ainda tenho mãe, irmã, namorada e muitos amigos pelos quais eu temo. É um tormento. Mas o engraçado é que ela, a morte, nunca chega em Mim, e esse é o ponto crucial da Minha ideia, da Minha teoria. Claro que não chega e não vai chegar nunca, alias, a grande questão é: por que não chega? A resposta é simples, óbvia. – Por que não pode. Se me desligarem quem vai assistir a essa TV, para quem passarão esses programas? Pra quem essas pessoas vão se exibir, nascer, morrer, etc. Quem saberá que elas existem? Ninguém. Ou seja, se eu encerrar o mundo acaba, fica escuro, preto, como uma televisão desligada. Ou melhor, ao contrário. Uma televisão ligada, mas sem espectador algum. E a explicação eu já descobri há pelo menos 20 anos, ainda menino: só Eu assisto, Sou o único. Os outros apenas representam, vivem à minha janela e existem somente sob a minha vigília.

Eu já tentei mudar de lugar. Quando era criança eu costumava fechar os olhos, esperava um pouco, mentalizava uma troca de corpos, mas quando os abria estava sentado na mesma poltrona, no mesmo Eu. Ingênuo, na minha infantil crise existencial, eu refletia:  - E se eu morrer, o que acontecerá?


Na época eu apenas desconfiava, ainda não tinha certeza, mas hoje sei que se eu morresse seria o fim. Não só o Meu, mas de toda a humanidade. Quanto peso, não sei por quanto tempo consigo suportar.

Tiago 25/08/2012

PS: Escrevi e datei o texto. Hoje me deparei com ele, apenas corrigi e publiquei. Infelizmente, os eventos recentes confirmam minha teoria.