quinta-feira, 12 de julho de 2012

Saudade, texto e objetividade

"A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio"


O texto é dimensão curta demais para dar conta de toda realidade. É físico, concreto e duro. Pretensioso, diz falar de tudo, explicar tudo, até o que nem mesmo ele sente. Ele não é gente! Algumas palavras não deveriam constar no dicionário. Tristeza, solidão, dor e saudade, por exemplo. É muita petulância que uma meia dúzia de palavras queira expressar um sentimento que é pessoal, universalizar o único. Beira o absurdo. Você já tentou explicar pra alguém algum tipo de sentimento? Tenta. Duvido que terminarás satisfeito nesse engenho. Vai é sair frustrado, contigo e com o ouvinte que, coitado, nem tem culpa. A dor sempre vence o texto, seja escrito, falado ou cantado.

Pensei em sugerir, assim como o fiz com "solidão" de Argemiro Patrocínio, que os dicionários devessem associar músicas, poemas, pinturas ou outras formas de arte ao significado de determinadas palavras com o objetivo de melhor definição. Mas o que estou dizendo com "com o objetivo" se a proposta é justamente o contrário? Que objetividade há em saudade, tristeza, solidão? A música, por si, ou ainda que associada a mil telas ou poemas não seria capaz de definir nenhuma daquelas sensações. A música, na verdade, deveria vir depois. Pois é essa a impressão que temos da arte, a impressão que de expressa nossos sentimentos muito melhor que nós mesmos. Portanto, não é possível inverter o processo. É como usar um remédio sem doença. Quantas vezes a canção ouvida diariamente ganha um novo sentido do dia pra noite? Não foi a música que mudou, foi você, que agora está infelizmente pronto pra compreender - um pouco mais - o que aquele pobre diabo sentia. A gente só sabe, sente, fica triste, e pronto. E ponto. Não nos peçam pra explicar, por favor.

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