Todo espaço, seja ele real ou
virtual, é marcado simbolicamente, sendo sempre associado consciente ou
inconscientemente a um grupo social. Ricos usam isso, pobres usam aquilo.
Quando a internet começou a se
popularizar no Brasil o Orkut era a rede social mais conhecida, então usada por
poucos, evidentemente por aqueles que tinham internet – em geral, pessoas das classes
médias, e os ricos, é claro.
No contexto de uma política de
estimulação do consumo por meio da ampliação do crédito às classes mais pobres,
e da invenção da chamada classe C (pobres
cujo único direito garantido é consumir. Saúde e educação, ainda não. “Vai uma
faculdade particular ai?”), o acesso à internet foi ampliado às classes
menos favorecidas. (Pra quem não percebeu
este último termo é um eufemismo, artifício discursivo ideológico que visa
dissimular a realidade. Pois, como todo mundo sabe, os mais pobres são pobres
mesmo e não tem favorecimento algum).
Assim, esse
espaço virtual deixou de ser interessante para os antigos frequentadores. O
acesso à internet era (e ainda é) um marcador de classe e, o Orkut, era um meio
de comunicação próprio desses poucos, era um meio "aristocrático". A
essa altura, a maioria dos pobres ainda se divertia com as maravilhas de poder
fazer uma ligação de casa.
O
Orkut, a partir de sua popularização, deixou portanto de marcar essa diferença,
essa distância entre os "melhores" e os "piores", e é por
isso que ele perdeu espaço. Estas pessoas (as de cima) tiveram que encontrar
outro lugar com o qual se identificar, então frequentado "só por
elas".
O Orkut foi pobretizado, e foi por isso que ele ficou ruim. Ele deixou de
marcar uma diferença de classe. As diferenças de formato, aplicativos,
interfaces, em relação a qualquer outra rede social são mínimas e esse discurso
só serve para maquiar uma realidade: ninguém quer se associar a qualquer coisa
que se relacione à pobreza. “Agora, qualquer
um tem Orkut”. Para os pobres o Orkut significava progresso, melhoria. Para
os da classe média em diante, sinônimo de pobreza. É nesse processo que nasce o
termo “orkutização”.
Com o crescimento do Facebook a construção
simbólica do Orkut enquanto rede social de pobre fica mais latente, mais
visível. No entanto, (graças a Deus se ele existir) o tempo passa, e a rede
social de Mark Zuckerberg é hoje também frequentada por pessoas das mais variadas
classes e “sofre” (tadinhos) com o processo da chamada orkutização. Termo
cunhado pela ressentida classe média, ele expressa de maneira muito clara o
temor dessa turma do meio de perder
seus espaços aristocráticos, mostrando como Eles
se sentem cada vez mais incomodados por ter de dividir com negros e pobres o seu
espaço, seja na internet, no trânsito ou no avião. A classe média pira!
Ps: “ah, que isso, elas estão descontroladas!”
Tiago, parabéns pelo artigo. Gostei muito.
ResponderExcluirEntão, lembro o que dizia uma amiga quando ela fez o seu perfil no facebook: "orkut é de pobre, facebook é mais selecionado".
É fato, o "face" passou a ser usado com uma imagem aristocrática.
Fiz meu facebook em 2008 para conversar com meu pai que então morava na Inglaterra. Meu pai era lavador de privadas. Porém, essa rede social era a mais comum para as pessoas contactarem os parentes que estavam "descobrindo a américa".
Hoje em dia, o facebook está cada vez mais massificado, e não demorará para sair de moda, e outra rede social mais nobre servirá de nicho para atrair aqueles mais intelectualizados que tem a necessidade de se distinguir dos pobres ignorantes.
Brincando de futurologia, até chuto qual será essa rede: www.tumblr.com