quinta-feira, 24 de maio de 2012

A orkutização e a ressentida classe média



Todo espaço, seja ele real ou virtual, é marcado simbolicamente, sendo sempre associado consciente ou inconscientemente a um grupo social. Ricos usam isso, pobres usam aquilo.
Quando a internet começou a se popularizar no Brasil o Orkut era a rede social mais conhecida, então usada por poucos, evidentemente por aqueles que tinham internet – em geral, pessoas das classes médias, e os ricos, é claro.
No contexto de uma política de estimulação do consumo por meio da ampliação do crédito às classes mais pobres, e da invenção da chamada classe C (pobres cujo único direito garantido é consumir. Saúde e educação, ainda não. “Vai uma faculdade particular ai?”), o acesso à internet foi ampliado às classes menos favorecidas. (Pra quem não percebeu este último termo é um eufemismo, artifício discursivo ideológico que visa dissimular a realidade. Pois, como todo mundo sabe, os mais pobres são pobres mesmo e não tem favorecimento algum).
                Assim, esse espaço virtual deixou de ser interessante para os antigos frequentadores. O acesso à internet era (e ainda é) um marcador de classe e, o Orkut, era um meio de comunicação próprio desses poucos, era um meio "aristocrático". A essa altura, a maioria dos pobres ainda se divertia com as maravilhas de poder fazer uma ligação de casa.
                O Orkut, a partir de sua popularização, deixou portanto de marcar essa diferença, essa distância entre os "melhores" e os "piores", e é por isso que ele perdeu espaço. Estas pessoas (as de cima) tiveram que encontrar outro lugar com o qual se identificar, então frequentado "só por elas".
O Orkut foi pobretizado, e foi por isso que ele ficou ruim. Ele deixou de marcar uma diferença de classe. As diferenças de formato, aplicativos, interfaces, em relação a qualquer outra rede social são mínimas e esse discurso só serve para maquiar uma realidade: ninguém quer se associar a qualquer coisa que se relacione à pobreza. “Agora, qualquer um tem Orkut”. Para os pobres o Orkut significava progresso, melhoria. Para os da classe média em diante, sinônimo de pobreza. É nesse processo que nasce o termo “orkutização”.
Com o crescimento do Facebook a construção simbólica do Orkut enquanto rede social de pobre fica mais latente, mais visível. No entanto, (graças a Deus se ele existir) o tempo passa, e a rede social de Mark Zuckerberg é hoje também frequentada por pessoas das mais variadas classes e “sofre” (tadinhos) com o processo da chamada orkutização. Termo cunhado pela ressentida classe média, ele expressa de maneira muito clara o temor dessa turma do meio de perder seus espaços aristocráticos, mostrando como Eles se sentem cada vez mais incomodados por ter de dividir com negros e pobres o seu espaço, seja na internet, no trânsito ou no avião. A classe média pira!

Ps: “ah, que isso, elas estão descontroladas!”

Um comentário:

  1. Tiago, parabéns pelo artigo. Gostei muito.

    Então, lembro o que dizia uma amiga quando ela fez o seu perfil no facebook: "orkut é de pobre, facebook é mais selecionado".
    É fato, o "face" passou a ser usado com uma imagem aristocrática.

    Fiz meu facebook em 2008 para conversar com meu pai que então morava na Inglaterra. Meu pai era lavador de privadas. Porém, essa rede social era a mais comum para as pessoas contactarem os parentes que estavam "descobrindo a américa".

    Hoje em dia, o facebook está cada vez mais massificado, e não demorará para sair de moda, e outra rede social mais nobre servirá de nicho para atrair aqueles mais intelectualizados que tem a necessidade de se distinguir dos pobres ignorantes.

    Brincando de futurologia, até chuto qual será essa rede: www.tumblr.com

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