quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sinal fechado



- Pois é, quanto tempo!
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
- Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
- Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é… Quanto tempo!
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
- Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente…

A cidade produz indivíduos blasé. Multidão = Liberdade. Ninguém sabe da sua vida pessoal. Multidão que invisibiliza. Que ótimo! Que merda! "Eu preciso beber alguma rapidamente... Vai abrir, vai abrir! ...adeus, adeus (...)" É a vida sempre em reticencias. Nunca completa, nunca vivida...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Disfarça e chora



"Chora, disfarça e chora", é o que canta Cartola falando de um amor não correspondido. Mas tenho pensado que nesse mundo não existe, de fato, espaço pra demonstração de sentimentos. Sejam eles de qualquer sorte. Como já ouvi certa vez, a própria cidade, em sua forma e agitação, representa a vida que não pára, a coletividade blasé. Não importa como você acorde, o ônibus continua passando, as pessoas continuam rindo nas esquinas ou na casa ao lado, o colégio funcionando, etc. É... o mundo não gira ao meu redor. O jeito é disfarçar e chorar. Ninguém quer te ver chorando, ninguém suporta alguém chorando. "Todo pranto tem hora".

"Ando triste, ainda que sorria, se pudessem ver o meu coração. Sorrio por convenção, sorrio por que me esqueço. Sorrio por que minto a mim mesmo essa verdade interna."

sábado, 26 de maio de 2012

Solidão - Argemiro Patrocínio



"Argemiro Patrocínio" (2002)

Certas coisas acontecem
Ouça quem se interesse
Em saber o que é solidão
É viver abandonado
É amar sem ser amado
É um vazio no seu coração

Quanto mais que se procura
Em noites claras ou escuras
Vive só em seu humilde barracão
Para ele as noites longas são mais frias
As esperanças são sombrias
Assim é a solidão

Solidão
Um fantasma que mata
E que maltrata o coração
É dor, angústia e sofrimento
O tédio é um eterno tormento
Assim é a solidão

Para além da definição do dicionário - apenas um significado ideal, aproximado - as palavras tem significados sociais, mais verdadeiros por que forjados no dia-a-dia do viver. E por vezes contraditórios em relação ao significado oficial. Se os dicionários se preocupassem mais com a realidade, com a dinâmica da vida, e se arriscassem além das definições estáticas certamente essa música deveria compor a definição ampliada de "solidão".

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A orkutização e a ressentida classe média



Todo espaço, seja ele real ou virtual, é marcado simbolicamente, sendo sempre associado consciente ou inconscientemente a um grupo social. Ricos usam isso, pobres usam aquilo.
Quando a internet começou a se popularizar no Brasil o Orkut era a rede social mais conhecida, então usada por poucos, evidentemente por aqueles que tinham internet – em geral, pessoas das classes médias, e os ricos, é claro.
No contexto de uma política de estimulação do consumo por meio da ampliação do crédito às classes mais pobres, e da invenção da chamada classe C (pobres cujo único direito garantido é consumir. Saúde e educação, ainda não. “Vai uma faculdade particular ai?”), o acesso à internet foi ampliado às classes menos favorecidas. (Pra quem não percebeu este último termo é um eufemismo, artifício discursivo ideológico que visa dissimular a realidade. Pois, como todo mundo sabe, os mais pobres são pobres mesmo e não tem favorecimento algum).
                Assim, esse espaço virtual deixou de ser interessante para os antigos frequentadores. O acesso à internet era (e ainda é) um marcador de classe e, o Orkut, era um meio de comunicação próprio desses poucos, era um meio "aristocrático". A essa altura, a maioria dos pobres ainda se divertia com as maravilhas de poder fazer uma ligação de casa.
                O Orkut, a partir de sua popularização, deixou portanto de marcar essa diferença, essa distância entre os "melhores" e os "piores", e é por isso que ele perdeu espaço. Estas pessoas (as de cima) tiveram que encontrar outro lugar com o qual se identificar, então frequentado "só por elas".
O Orkut foi pobretizado, e foi por isso que ele ficou ruim. Ele deixou de marcar uma diferença de classe. As diferenças de formato, aplicativos, interfaces, em relação a qualquer outra rede social são mínimas e esse discurso só serve para maquiar uma realidade: ninguém quer se associar a qualquer coisa que se relacione à pobreza. “Agora, qualquer um tem Orkut”. Para os pobres o Orkut significava progresso, melhoria. Para os da classe média em diante, sinônimo de pobreza. É nesse processo que nasce o termo “orkutização”.
Com o crescimento do Facebook a construção simbólica do Orkut enquanto rede social de pobre fica mais latente, mais visível. No entanto, (graças a Deus se ele existir) o tempo passa, e a rede social de Mark Zuckerberg é hoje também frequentada por pessoas das mais variadas classes e “sofre” (tadinhos) com o processo da chamada orkutização. Termo cunhado pela ressentida classe média, ele expressa de maneira muito clara o temor dessa turma do meio de perder seus espaços aristocráticos, mostrando como Eles se sentem cada vez mais incomodados por ter de dividir com negros e pobres o seu espaço, seja na internet, no trânsito ou no avião. A classe média pira!

Ps: “ah, que isso, elas estão descontroladas!”