quinta-feira, 1 de março de 2012

Fernando Pessoa

Cruz na Porta da Tabacaria

  Cruz na porta da tabacaria!
  Quem morreu? O próprio Alves? Dou
  Ao diabo o bem-estar que trazia.
  Desde ontem a cidade mudou.
  Quem era? Ora, era quem eu via.
  Todos os dias o via. Estou
  Agora sem essa monotonia.
  Desde ontem a cidade mudou.
  Ele era o dono da tabacaria.
  Um ponto de referência de quem sou
  Eu passava ali de noite e de dia.
  Desde ontem a cidade mudou.
  Meu coração tem pouca alegria,
  E isto diz que é morte aquilo onde estou.
  Horror fechado da tabacaria!
  Desde ontem a cidade mudou.
  Mas ao menos a ele alguém o via,
  Ele era fixo, eu, o que vou,
  Se morrer, não falto, e ninguém diria.
  Desde ontem a cidade mudou.


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