domingo, 6 de novembro de 2022

Travessia

Hoje fazem dez anos que eu chegava. E você não estava, mas voltava. Seu celular carregava, eu comia e descansava, te esperava, não sabia, não sonhava. Não imaginava, que de novo, mudaria, eu mudava. Desconfiei, procurei e aguardei, mas não liguei. Fui jogar, desligar. Deu onze, e sem seu bronze, avancei. Liguei pra ela e pra ele, perguntei, não gostei e disfarcei. Acalmei: - ela chega, te aviso. Sem sorriso. Apelei. Fui no tio, ajuntamos, procuramos, desarmamos, desabei. Muito, eu nem chorei, respirei, levantei, avisei, avisei e avisei, esperei, reconheci, choquei, assinei, nem comi. Dia foi, noite vêi. Revirei, não dormi, fingi, acolhi, resignei - falei com a prima. Era nossa sina, na vida: calejei. Desisti, fiquei, tentei ir, me cansei, apeei, desci, duvidei. Enrolando, fui levando, reconstruindo, enganando, caminhando... e até hoje não cheguei.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

no fim

No fim das contas, do dia, notou que estava muito parecido com o pai. Era fim de tarde quando lembrou-se do comentário da irmã, feito a um amigo que depois contou para ele: “tenho medo de que ele fique igual meu pai”. Ela tinha razão. O pai era maravilhoso, pai mesmo, mas nos últimos tempos passava parte do dia deitado, barriga pra cima, tristeza estancada nos olhos vidrados na televisão. Perto da cama havia sempre algum livro espírita – que ele nunca o viu lendo. Talvez o ajudassem a imaginar as saudades, os abraços roubados pelo acaso. O rosto tranquilo, bonito, era o mesmo de antes, quando os abraços haviam – apenas um pouco mais profundo. Ele, no fim do dia, sentiu aquela sensação, as mesmas profundidades que o pai sentia. Embora a casa não fosse a mesma, seus livros diferentes – bem menos encantados que os do pai – naquele fim de tarde ele sentiu que ele era ele. Antes, na verdade desde o começo da adolescência, já havia notado que alguns trejeitos eram muitos parecidos, a forma de pensar, de (não) reagir, de falar com as pessoas. Não era muito de ficar deitado, igualmente - porém - a televisão se tornara uma companheira, ali, todo dia, todo horário, sempre ligada na sala vazia, o jornal, a novela, o jogo – a vida contada na programação da tela. O olhar, parado no olhar, olhava o passado – raramente comemorava um gol. E assim a vida se via, partindo dias, perdendo horas, como se não importasse o tempo. Pensando a razão da irmã, ele pensava nisso tudo, a frase que ela falou com o amigo rodando a cabeça – batendo e voltando na tela da televisão. No braço do sofá, o livro não lido era deixado de lado, sem marcador, desobrigações. Começava a novela das seis, o dia terminava, restava a noite, restava ele - o pai.

domingo, 15 de outubro de 2017

Se lhe ouvissem.. .

Fechou os olhos. Apertava as pálpebras, uma contra a outra, contra si. Pensava no pai, agradecia a mãe. Desculpava-se também. Sabia que pra ela aquilo talvez não fosse bom. Lembrou da avó, dos irmãos, da prima e do afilhado. Teve certeza de que fazia o certo, ou mais ou menos. De que estava cansado tinha certeza, absoluta quase, e por isso seguiu o procedimento, até então nunca testado, descoberto por ele – desinventor de si. As mãos amoleciam, o coração batia leve, a respiração diminuía, entendida, respondendo conforme ele tinha imaginado, no dia anterior, no momento em que teve aquela ideia, insigth seu.
Estava chorando, abraçado com ela, na casa dela. De lado, joelho dobrado, fechou os olhos quando sentiu que a luz forte do quarto o incomodava, quase impedindo o curso da tristeza. Foi então que fechou: a cara, o coração e os olhos. O corpo. Ela mesmo, talvez que nem tenha notado, pensando fosse só sono. Mais que tristeza, nascia  ali um jeito. De dentro ele sentia os olhos tremendo, apalpebrano, as peles dos olhos expulsando com aquele balanço as lágrimas que lhe subiam a garganta. Rios no rosto, confortáveis. Junto com o início dos pensamentos vieram as primeiras noções de que aquilo poderia dar certo, solução limpa e, principalmente, inimaginável para o mundo. Ninguém descobriria.
Pediu ao pai, aos irmãos, orou à Deus até, com quem a tempos não conversava. Sentiu nesse diálogo contudo algum receio, pensando que sendo filho que pouco pedia poderia ser prontamente atendido. Abriu os olhos e deixou que a parede azul do quarto levasse consigo toda a potência da quase descoberta, semi-assustado.
Iniciara o processo no dia seguinte, agora em seu próprio quarto. Paredes brancas, sujas de tristeza amolecida, violões calados observando tudo. Fazia de novo, novamente. Falou com o pai, com a irmã primeira, Deus, e até com a bisavó. Tudo corria bem. Desacelerações. Pensamentos altos, respiração baixinha, calma escura da luz sem luz, sonolentos calores desinteressavam até dos pernilongos. Primeiros sinais. Sentimentação dos primeiros frios, nos pés, dedos das mãos, na testa que seria tocada por alguém caso o pessoal atendesse o pedido. Precisava concentrar, pedir direitinho, bom menino. Tempo havia que não os via. Dorminhou sem saber se foi, se ficou, pela pouca experiência o provável é tudo desembocar-se no sono só. Fosse, não inconformaria, seguiria atentando, olho colado, filho-falando. Se lhe ouvissem...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017